Infâncias na contemporaneidade

22 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade e face irritada. Nesses momentos, eu sentia que ela desejava bater em mim. Quando utilizávamos a bola para brincar, ameaçava e, por vezes, jogava a bola em minha direção com o máximo de força possível. Meu interesse em falar sobre a sua vida anterior à adoção ou em relação aos irmãos era um gatilho que disparava a sua raiva. Com as bonecas, na casinha terapêutica, o enredo era permeado pela dor, assassinato, mentiras, trapaças e dissimulações entre os personagens. Usava a linguagem verbal misturada com gestos corporais para comunicar quando as palavras não surgiam no pensamento. O processo analítico ocorreu nessas circunstâncias, com expressões de vivências traumáticas em sua primeira infância. Por outro lado, Lili manifestava muito carinho, amor, alegria e sensibilidade a possíveis dores, cansaço e desconforto que eu sentia. No início e no término, ritualmente expressava seu afeto positivo. Na chegada, se escondia para ser encontrada. No final, deitava-se na poltrona como um bebê, pernas para cima, e pedia para eu calçar seus tênis. Fazia de conta que sentia cócegas, puxava o pé repetidas vezes e ria. Amarrava firmemente os longos cadarços, puxando-os com uma firmeza excessiva. Receei que a circulação sanguínea em seus pés pudesse ser impedida. Na sessão 38, Lili se recusou a ajudar na organização da sala. Foi firme em sua decisão. Na tentativa de manejar e estabelecer um limite, sem perceber, posicionei-me na porta, mão suspensa sobre a maçaneta, utilizando recursos verbais sem gerar efeito. Lili se organizou, calçou os tênis e se posicionou diante de mim. Com muita segurança falou: “Eu quero sair” (SIC). Subitamente, saí de mim, olhei a cena e quando voltei tive a sensação de estar impondo o bloqueio da porta, transmitindo a mensagem de que não haveria possibilidade de sair sem guardar os brinquedos. Surpreendi-me bruscamente. Como um terceiro, observei essa cena e imediatamente fui invadido pela sensação de estar agindo como um agressor. Em suma, conseguimos organizar um desfecho aparentemente equilibrado. Combinamos que não iríamos poder adaptar a sala às nossas brincadeiras até o momento em que aprendesse sobre a importância de realizar a reorganização no final da sessão. A despedida foi fria e seca, distante. A partir deste momento, fui tomado por um sentimento de raiva que levou horas para se dissipar. O sentimento era de submissão. Fui derrotado na queda de braço com a minha paciente. Uma forte

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