23 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade desaprovação em relação à minha atitude de impor, ao invés de mediar o estabelecimento de limites por meio de instrumentos lúdicos. O desfecho deste episódio foi, mais uma vez, surpreendente. Na sessão seguinte, Lili entrou no consultório, sentou-se na poltrona e falou que havia pensado sobre a combinação que havíamos realizado. Tínhamos duas opções e Lili falou que estava escolhendo a opção de organizar a sala e assim podermos continuar com as brincadeiras. Tive a sensação de que ela seria incapaz de refletir e, sozinha, tomar essa decisão. Desconfiei de sua postura e imaginei que teria sido orientada pela sua mãe. Mas, no decorrer da análise, ficou claro que ela não havia conversado com Lola sobre o fato ocorrido. Depois disso, Lili não propôs mais brincadeiras com adaptação da sala e passou a usar atividades no computador e celular, deixando também de buscar artifícios para estender a sessão. Reflexão Observa-se que a carapaça da contratransferência não é desenvolvida fácil e rapidamente. O que Freud chamou de problema constante emerge, neste caso, como um desafio constante (Freud; Jung, 2023). A proposta de Racker (1948) para a contratransferência parece servir como uma luva nesse caso. O analista revive na análise a neurose de contratransferência, o Édipo, a castração, entra em contato com o próprio masoquismo, com o sadismo, com os impulsos perversos. O desafio é fazer o manejo desse material de modo que não seja atuado nem escondido (Ferenczi, 1919) e sirva de recurso técnico (Heimann, 1950) para enriquecer o tratamento psicanalítico. Quando a paciente se impôs ao analista, não aceitando a exigência de guardar os brinquedos no final da sessão, possivelmente ocorreu uma regressão inconsciente do analista a situações opressoras vividas na infância. Seu olhar firme e sua fala decidida, frente a frente com o analista, fizeram-no se defrontar com sua parte tirânica e foi nesse momento que ela se tornou vitoriosa na queda de braço. O ego do analista recebeu a denúncia de que sua parte tirânica poderia estar reeditando as vivências traumáticas de Lili com seus pais biológicos durante a primeira infância. Foi quando o ego adulto retomou o controle e integrou as forças libidinais que estavam dissipadas, oportunizando uma possibilidade de escolha para a paciente. Na sessão seguinte, Lili retornou
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