24 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade e revelou sua capacidade de compreensão, deslocando novamente o analista, pois este a aguardava com as defesas em prontidão para lutar contra os opressores infantis internos projetados no paciente (Racker, 1958). Com as defesas desarticuladas, analista e paciente retomaram o ambiente estável e seguro para a continuidade da análise. O uso da contratransferência como instrumento técnico (Heimann, 1950) coloca o analista no percurso contínuo de formação. O aprendizado é constante e singular, pois a evolução no domínio da contratransferência ocorre a cada sessão, a cada paciente, a cada leitura e na análise pessoal. A singularidade das relações entre paciente e analista indica que a carapaça nunca estará completa. A complexidade psíquica de cada sujeito e a amplitude do inconsciente edificam os pilares da dúvida e da incerteza permanentemente. Cada novo paciente coloca em xeque a suportabilidade da carapaça do analista ao mesmo tempo que a fortalece. Na análise de Lili, foram inúmeros os momentos em que ela criou situações desafiadoras e desconcertantes. Foram diversos os personagens de sua história que povoaram a mente do analista: irmãos, pais agressores, cuidadores, colega de quarto e amigos. Como analistas de crianças, somos capturados e mobilizados a desempenhar o papel do objeto que a criança elege como necessário para cada momento do seu desenvolvimento psíquico. É essencial que esse processo encontre um espaço, o setting analítico, para ser gestado e gerar o nascimento de objetos internos ressignificados e reintegrados. Cabe ao analista o desempenho de sua função, mesmo que seja indefinida e maleável: uma postura madura e vitalizadora que emerge a partir do uso da empatia, criatividade, flexibilidade, hospitalidade, suportabilidade e capacidade de cuidar (Machado, 2009). Cria-se a figura de analista que representa segurança para a criança em análise, possibilitando vivências saudáveis que favorecerão o seu desenvolvimento psicoafetivo. Referências FERENCZI, S. A técnica psicanalítica. Obras Completas Psicanálise II. Tradução de Á. Cabral. 2. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. p. 407-419. Originalmente publicado em 1919.
RkJQdWJsaXNoZXIy MjEzNzYz