Infâncias na contemporaneidade

Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade 28 Nossos corpos negros Nossa capacidade de gerar entusiasmo é profundamente afetada pelo nosso interesse uns pelos outros, por ouvir a voz dos outros, por reconhecer a presença dos outros bell hooks Um corpo negro será atravessado por várias questões que permeiam o seu existir, suas relações sociais, comunitárias e familiares. Quando pensamos na constituição desse corpo, a escola exerce um papel fundamental de possibilitar caminhos, abrir portas e intermediar as relações grupais e sociais, além do papel de ensino e aprendizagem. Quando falamos de um pequeno corpo negro, que está frequentando uma escola em um dos municípios que faz questão de marcar a sua colonização alemã, inclusive com lei municipal sobre tal, esses corpos infantis passam a ser invisíveis e negligenciados dentro das suas potencialidades e possibilidades. As questões atreladas a preconceitos raciais, por vezes, são minimizadas, tratadas de forma omissa, ou incluída em um grande pacote de “problemas de convivência”. Ao me inserir em uma escola da rede municipal de uma cidade da região metropolitana de Porto Alegre, para atuação enquanto psicóloga, eu - um corpo negro e gordo - me deparei com várias situações que já havia vivenciado enquanto estudante de uma escola pública no ensino fundamental e médio. Precisei também lidar com as desconfianças direcionadas ao meu fazer profissional e lidar com as invalidações e desconfianças que se dirigem a uma psicóloga negra. Minha inserção se deu através de um programa realizado pelo município que esteve em vigência entre os anos de 2022 e 2023. Ingressei no programa por necessidade e por responsabilidades financeiras, não por almejar a atuação profissional em uma escola. Já que, enquanto estudante, minha experiência não foi das mais tranquilas e não tinha a menor saudade dessa época. Porém, aqui nessa escrita, não irei me ater ao programa, mas sim à minha experiência com as crianças que encontrei e meu reencontro com a minha criança na escola. Essa experiência junto ao programa me levou a pensar criticamente acerca do recorte de raça, com um olhar cuidadoso para crianças negras, bem como para os processos de representatividade e aco-

RkJQdWJsaXNoZXIy MjEzNzYz