Infâncias na contemporaneidade

29 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade lhimento. Para isso, experimento a escrevivência, trazendo um relato de experiência com um toque ficcional. Como nos coloca Dorneles et al. (2024, p. 6), as escrevivências são como “palavras germinantes”, possibilitando o crescer de histórias e narrativas que nem sempre são contadas. Um corpo implicante percorre territórios, anda entre os processos, sente e vive intensamente as bonitezas e mazelas dos espaços por onde circula. Em um corpo implicante, profissionalismo e neutralidade jamais andam juntos, pois no chão da escola não existe como olhar de longe ou não ser afetado. Um corpo negro implicante chega à escola e, ali, vivi ali diversas experiências pessoais e profissionais que chegam nesta escrita. A escola como espaço de potência Ouço, vejo e sinto as infâncias que permeiam a escola, mas também autorizo totalmente minha criança e minha infância a retornar e lidar com seus medos, inseguranças e potencialidades que vivi lá atrás, enquanto uma criança negra e gorda na escola. Para isso, me utilizo do conceito de infância de Noguera (2019, p. 140), que explica que essa fase “está sempre acessível a cada um de nós”. A infância, neste trabalho, é entendida, então, como aquela “capaz de reunir experiências espirituais restauradoras e ações políticas transformadoras e democráticas” (Noguera, 2019, p. 132), e onde buscamos ser “capazes de assumir a infância como um estado existencial especial que nunca devemos perder” (Noguera, 2019, p. 135). Minha infância na escola foi a infância de uma estudante com mãe professora. Fui muito protegida em vários sentidos e situações, porém, essa proteção não me fez escapar do racismo e da gordofobia. Preconceitos que apareciam até mesmo no questionamento em relação ao fato da minha mãe, uma mulher parda, ter o tom de pele mais claro que o meu: “mas ela é tua mãe mesmo?” Sim, ela é minha mãe. E por ser filha de mãe professora na rede estadual até a 5ª série tive cerca de cinco trocas de escola, pois eu ia aonde ela estava, perto de casa, no interior, na maior escola da cidade. Todas as mudanças, certamente, acompanharam uma criança, que teve muita dificuldade para se alfabetizar, que era sempre a última a copiar o que foi passado no quadro, por vezes nem dava tempo e

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