30 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade precisava da ajuda dos colegas. Em uma das trocas que tive de escola, encontrando a professora anterior tempos depois, ela me disse: “achei que tu não irias conseguir acompanhar o ritmo”. De fato, sempre foi muito difícil, mas a implicância me acompanha desde cedo e assim fui achando formas de dar conta, ou, ao menos, responder aos processos escolares. Enquanto estudante, eu tive apenas uma professora negra, no ensino fundamental. Professora de inglês; nunca tive facilidade com tal disciplina, mas era encantada naquela professora e no seu jeito de ser. A professora era a mais nova e mais despojada entre os professores, também era receptiva e entendia a dificuldade geral dos alunos de uma escola pública em relação ao seu conteúdo. Depois dela, fui encontrar outra professora negra somente no final da graduação, em uma disciplina eletiva relacionada a outro curso. Sou uma psicóloga negra, que foi formada por professores brancos, estudando sobre abordagens de origem europeia que foram pensadas em uma realidade muito distante do meu “sangue amefricano”. Toda essa conjuntura refletiu na minha constituição profissional, seja nos processos de insegurança ou em relação ao público de trabalho. O fato é que eu só comecei a trabalhar com crianças depois de seis anos de formada, partindo de uma necessidade financeira que se apresentava naquele momento, e não por um desejo genuíno. A escola surgiu na minha vida como uma opção de trabalho para pagar as contas. Mas, como também somos surpreendidas em vários momentos da nossa trajetória profissional, estar com crianças foi uma grata surpresa. Chegar em uma escola para atuar profissionalmente me remeteu a muitas situações que eu tinha vivenciado enquanto estudante. Fui recebida com lista dos alunos-problema, dificuldades de convivência entre os colegas, dificuldade de acesso, estranhamento de alguns professores e bastante trabalho a ser feito em uma carga horária bem pequena para dar conta de tudo. O meu principal afazer dentro da escola, eram os trabalhos em grupo, quando me refiro em grupo aqui, estou me referindo às turmas. Entre 20 e 25 estudantes por vez, era isso que a carga horária de doze horas semanais para uma escola com quase seiscentos alunos permitia. Recebia a demanda dos professores e da supervisão, conhecia a turma e, a partir disso, desenvolvia um trabalho mais específico conforme a necessidade que ali se apresentava, por meio de
RkJQdWJsaXNoZXIy MjEzNzYz