31 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade oficinas, palestras, rodas de conversas, com trabalhos lúdicos, conforme a demanda e o tempo permitisse. Por vezes era necessário dividir a turma, principalmente com os adolescentes, mas, em sua maioria, trabalhava com a turma reunida e, muitas vezes, em conjunto com as professoras. Entrar em sala e conhecer as crianças era uma das partes mais legais, saber o que elas conheciam sobre psicologia/psicóloga (quase todas conheciam e tinham várias histórias sobre), ouvir suas perguntas e entender o que elas pensavam que não estava tão legal no grupo. O senso crítico das crianças em relação ao processo de grupo é muito aguçado, e, assim, conseguimos construir conjuntamente um espaço de acolhimento, trocas e respeito. Entrar em uma sala de aula com tantas crianças era desafiador, seja construindo histórias sobre sentimentos, seja explicando sobre o espaço de cada um e os limites do corpo; mas, principalmente, quando conversamos sobre questões raciais e como essas situações se atravessavam em um dos bairros mais negros da cidade. Digo isso e lembro da professora Bárbara Carine (2023), quando faz menção a esses concursos de beleza que existem nas escolas: É tipo uma marca de nascença, não fiz nada de errado para não ser eleita, para não me parecer com elas, eu simplesmente não pareço. Acho que o problema está em todas as meninas tipo eu. Porque aí ser errado é um estado “natural”, e não por causa de um vacilo meu. Ufa, nascer errado é menos pior, né? (Pinheiro, 2023, p. 23). Os processos relacionados à nossa autoestima, que vivemos na escola, nos atingem diretamente. Nem tudo é sobre um ataque direto, uma agressão ou um xingamento, muitas vezes é esse movimento de não se parecer com os preferidos dos professores. De não poder ter as mesmas roupas e calçados, ou nunca vencer um concurso de beleza, na verdade nem ser convidada a participar de tal concurso. Uma forma de sustentar o meu fazer nesse caminho, foi reconhecer que sou uma pessoa implicante, daqueles que implicam com as coisas, mas também daquelas que se implicam, buscando um processo de mudança necessário (Silva, 2025). “O implicar coloca-se no dia a dia como forma de mudar aquilo que nos incomoda, mas também como forma de potencializar o que percebemos enquanto força” (Silva, 2025, p. 30).
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