Infâncias na contemporaneidade

32 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Neste implicar, fui buscando os caminhos de potencialização e de afetividade junto às crianças, para que aquelas que ainda usavam máscara, mesmo três anos após a pandemia, se sentissem seguras para tirar sem que ninguém comentasse sobre seus fenótipos. Em grupo, permitimos que quem sempre ficava em silêncio pudesse falar dos seus sonhos para que todos pudessem ouvir, em grupo construímos caminhos e a compreensão de que cada uma lida com as emoções de um jeito seu, refletindo sobre como podemos acolher quando necessário. Existia um carinho explícito e uma surpresa evidente quando as crianças me viam entrando em sala de aula, principalmente entre as meninas negras. Eu, a psicóloga, com os cabelos trançados e coloridos igual o delas. Muitas vezes, esse reconhecimento foi motivo de identificação e elogios mútuos, que nos permitiram ressaltar nossa beleza negra. Aquelas meninas ali, pequeninhas, de sete, oito, ou nove anos de idade, olhando com olhos encantados e se reconhecendo em mim. Talvez não tenhamos ali uma nova miss escola, mas sim uma futura psicóloga. Em atuação profissional em uma escola, não deixo de ser uma psicóloga social e, nesta forma de ver e me colocar profissionalmente, busco conhecer e entender o contexto social. A comunidade onde estou executando o meu trabalho é fundamental, desde a compreensão geográfica e o afastamento do centro da cidade, até a noção comunitária que circula pelo bairro. Conforme estreitava o laço com os estudantes e a comunidade escolar, pude entender melhor os atravessamentos e as interseccionalidades que aqueles estudantes lidavam cotidianamente. Relações transpassadas pelo tráfico de drogas, violências intrafamiliares, questões de gênero e sexualidade, como já dito anteriormente, o racismo, além de outras questões de vulnerabilidade social. Na intensidade cotidiana vivenciada na escola, sempre procurei conhecer, junto às crianças, as suas histórias, e auxiliá-los a contar sobre si e se empoderarem das suas vivências, dos laços comunitários e do encantamento pela escola. Mesmo que muitas vezes existissem lacunas nessas histórias, o importante é o que se tem. A fala, a escrita, o desenho, o rap, o funk, a dança, todas as formas de expressão são válidas perante uma infância que, por muitas vezes, é silenciada em um processo nomeado por Noguera (2020) como necroinfância:

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