33 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade “é uma variação, ou ainda, um dispositivo da necropolítica que tem como objeto a infância, especificamente as crianças negras. A necroinfância pode ser definida como o conjunto de práticas, técnicas e dispositivos que não permitem que as crianças negras gozem a infância”. (Noguera, 2020, s.p.) É importante lembrar que quando falamos em infâncias negras, muitas vezes nos dirigimos a proposição de dor, sofrimento e violências, mas é sempre necessário reconhecer e dar possibilidades às potencialidades de construção e afirmação. Assim como pensam Silva e Noguera (2021), para pensar as infâncias negras, “concebê-las somente a partir do sofrimento é aprisioná-las, fortalecendo o que lhes causa mal. Algo tão violento quanto não enxergá-las” (Silva; Noguera, 2020, p. 188). Gloria Ladson-Billings (2008, p. 73), lembra que “qualquer pessoa que tenha passado algum tempo numa sala de aula sabe que ela se situa entre as nossas configurações sociais mais incomuns”. A sala de aula muda a rotina de uma criança, de forma que ela estranha que comportamentos comuns dentro da infância, como correr e brincar, já não são aceitos (Ladson-Billings, 2008). Assim, nossas crianças também são afastadas da infância dentro da escola. Lembro-me de quando era pequena, como precisei criar artifícios para perpetuar minha infância enquanto fosse possível, até porque a menina preta e gorda, não é a mais popular e cheia de amigos na escola né. Enquanto psicóloga em atuação escolar, minha maior motivação e preocupação foi incentivar as potencialidades já existentes em cada criança e em cada grupo que ocupava aquele espaço. Assim como Pinheiro (2023), que nos lembra que a escola deve exercer o papel de incentivadora, transmitindo um legado cultural e impulsionando o desenvolvimento humano, além de ter um compromisso emancipatório dos sujeitos. Esse processo de deslocamento que eu vivi na minha infância, por vezes, se repetiu na minha atuação na escola também. Esse ambiente acabou sendo um espaço de adoecimento para mim em determinados momentos de deslocamento do grupo, pois eu não era professora e nem estudante, era uma estranha que chegou ali quase no fim de um ano letivo, para o início de outro. A sensação de que muitas coisas só chegavam em mim quando já estavam em ponto de ebulição, sempre apagando incêndio e nunca na prevenção.
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