Infâncias na contemporaneidade

34 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Por mais que em alguns momentos eu me questionasse em relação ao meu fazer naquele espaço, tinham os estudantes, com quem estabeleci um vínculo e uma parceria incrível. As falas como: “eu não tinha te visto, estava com saudade”, “estou tão triste, posso ficar por aqui um pouquinho” e “estava querendo te dar um abraço”, lembravam-me do meu motivo de estar lá. Ladson-Billings (2008) lembra-nos o quanto é importante que a experiência cotidiana do estudante seja legitimada dentro do ambiente escolar, é necessário usar recursos da vida real dos estudantes para que seja possível acessar integralmente a potencialidade dos estudantes negros. Muitas crianças ali aprendem desde cedo a se virar e a serem responsáveis por coisas importantes em casa ou para a família. Se virar não é ser autônomo, não é ser líder, por isso a importância de trabalhar na perspectiva de acolhimento, autonomia e liderança. Por fim, o começo A implicância chega, então, como um caminho de resistência, para que as psicólogas negras consigam atingir os movimentos e ações necessárias, a partir dos incômodos que seus corpos geram no espaço escolar e demais espaços de trabalho. A implicância não é sobre analisar com implicação a situação, a demanda ou a instituição, ela é racializada, é o se reconhecer enquanto uma criança negra ocupando aquele espaço, é entender que seu corpo é incômodo e implicar com isso gerando mudanças. “A escrita nasceu para mim como procura de entendimento da vida.” (Evaristo, 2020, p. 34) e, neste sentido, a escrevivência acompanha essa escrita enquanto uma política que nasce e se implica em olhar para a dimensão das experiências e das histórias de vida das crianças negras que passaram por essas palavras. E quando falo de crianças, falo de mim mesma, mas também de todas aquelas crianças negras que possibilitaram a minha vivência. Que possamos, enquanto profissionais da psicologia, enfrentar o embranquecimento dos espaços de educação, lidando com os resquícios do processo de escravização que esse país vivenciou, sem apagar a nossa história. Que possamos potencializar crianças negras, afirmar seu processo identitário de autoestima e de pertencimento. Que a psicologia social esteja presente nas escolas enquanto movimento de mudança, potencialização e implicância das relações e

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