Infâncias na contemporaneidade

37 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade A infância enquanto espaço passado-presente Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. Manoel de Barros Quantos inícios compõem uma infância? Quantas e quais são as marcas de um desenvolvimento saudável e possível, mediante os tantos lugares de partida, as tantas memórias, ambientes e invólucros que constituem esta inescapável e intransponível parte da vida? Quando Calligaris (2010) escreve que “Numa psicanálise, descobre-se que a vida adulta é sempre menos adulta do que parece: ela é pilotada por restos e rastros da infância”, conseguimos ter uma certa noção da complexidade de um período que começa, e que talvez não termine, afinal, “Tornar-se adulto (por uma psicanálise ou não) é um processo árduo e sempre inacabado” (Calligaris, 2010). Na trama complexa de algo que por si só traz seus desafios, nos deparamos com uma série de sucessivas novidades contemporâneas que põem à prova os conhecimentos já adquiridos até então, acerca do que entendemos por infância. Com um crescente uso não só de psicofármacos, mas também de dispositivos eletrônicos e telas, nos questionamos quais infâncias são possíveis e quais construções são permitidas. Observamos uma certa intolerância ao sintoma infantil, um apaziguamento das criações provenientes das crianças. Winnicott (1944/2021, p. 193) alertou: Os médicos, aparentemente, sentem-se na obrigação de tratar e curar qualquer sintoma. Em psicologia, no entanto, isso equivale a uma armadilha e a uma ilusão. É preciso observar o sintoma sem tentar curá-lo, porque todo sintoma tem seu valor para o paciente e, muitas vezes, é melhor deixar o paciente em paz com seu sintoma. [...] Para tratar um paciente de maneira eficaz, é preciso trabalhar bastante ou ajudá-lo a carregar um fardo pesado, sendo ilógico atacar o sintoma antes de termos reconhecido e trabalhado o conflito mental subjacente. Estamos em um tempo incapaz de suportar um sintoma? Quais são as condições que proporcionam uma cadeia narrativa de acontecimentos para que uma criança seguramente demonstre o seu brincar e

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