Infâncias na contemporaneidade

38 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade sua criatividade? Quais são os caminhos possíveis para o desenvolvimento de um self saudável? Marcamos aqui o encontro com as infâncias desde o lugar do contemporâneo, compreendendo o tempo presente como uma fratura, um paradoxo do qual estamos ora distantes, ora próximos (Agamben, 2009). Esse contemporâneo que nos atravessa e nos fratura, constitui o campo que compreendemos como infâncias, produzindo modos de subjetivação que correspondem às produções políticas, socioculturais e econômicas do nosso tempo. Infâncias em um contemporâneo marcado pela hibridização da vida com a cibernética, da guerra permanente contra a diferença, do aprofundamento das desigualdades de classe, raciais, de gênero e sexualidade. Brincar, neste contexto, é atividade automatizada pela emergência de infâncias empurradas à lógica produtivista e à relação acelerada com o tempo. Isto posto, quando pensamos em qual é o papel dos sintomas na constituição infantil, devemos pensar nas consequências da eliminação de tais sintomas, e que nessa eliminação pode ser feita uma relação direta com a eliminação dos modos de brincar e dos modos de existir enquanto constituição de sujeitos que se contrapõem a norma estabelecida no contemporâneo. Aqui questionamo-nos: brincar (ou a falta de) constitui um sintoma do contemporâneo? Quais corpos e quais infâncias são permitidas mediante as composições narrativas que nos permeiam no século XXI? Sobra alguma possibilidade de brincar e de expandir o potencial criativo quando somos cercados por um conjunto de artifícios que cativam a atenção, que entorpecem os cinco sentidos e capturam completamente o tempo e o espaço das crianças? Quando nos atemos aos dados, vemos que, no Brasil, em 2024, a porcentagem das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos que se utilizavam da internet era de 93%, (TIC Kids Online Brasil, 2024), e enquanto o guia lançado pelo Governo Federal Brasileiro orienta que crianças antes dos 12 anos completos não possuam smartphones próprios (Brasil, 2025), dados mostram que 67% das crianças de 9 a 10 anos e 79% das crianças de 11 a 12 anos possuem seu próprio celular (NIC. br, 2024). O acesso à internet e a posse de um dispositivo próprio não abrem margens diretas para conclusões precipitadas sobre benefícios ou malefícios que poderão ser gerados a partir de tais constatações. Enquanto ainda há muito campo para pesquisas acerca de vantagens e desvantagens, riscos e contribuições positivas, pensamos em como o

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