Infâncias na contemporaneidade

40 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade A ideia principal é que se deve deixar brincar. Deixar as crianças interagirem com o mundo, com seus limites e espaços, suas bordas e seus não-saberes descobertos numa certa lógica narrativa que se torna saber a partir do momento em que se brinca. A que se propõe, então, o brincar? De acordo com Winnicott (1971/2019, p. 74): A brincadeira que é universal e que pertence ao âmbito da saúde: o brincar promove o crescimento e, portanto, a saúde; brincar leva aos relacionamentos de grupo; brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; e, por fim, a psicanálise foi desenvolvida como uma forma altamente especializada de brincar, em prol da comunicação consigo mesmo e com os outros. Outra contribuição possível para uma aproximação com a experiência do brincar, é a proposição de um devir-criança (Deleuze; Guattari, 1997). Devir enquanto movimento de derivação de produções de subjetividade, processo de des-individualização e des-territorialização de onde podem emergir novos territórios existenciais e formas de vida. Um devir-criança, assim, assume essa face brincante e potencializada das infâncias, movimento capaz de bagunçar instituídos e produzir invenção. Esse movimento de invenção e produção de formas de vida criativas, no entanto, não está livre de ser encarcerado e paralisado diante das exigências de um sistema produtivo capitalista-neoliberal. Guattari (2024), a propósito disso, afirma que a criança pode ser capturada por códigos que constantemente produzem uma subjetividade modelada aos valores econômicos, midiáticos e hierárquicos do capitalismo, ou seja, o devir-brincante pode ser interceptado pelas forças dominantes. Neste movimento de paralisação do devir-brincante pelas modulações do capitalismo em sua face contemporânea, os códigos cibernéticos aparecem como um desafio que desponta no horizonte, uma obstrução na possibilidade de brincar enquanto experiência de encontro com o mundo em sua materialidade e composições sociais, bem como na derivação de formas de vida inventivas. Neste contexto, nos encontramos com um brincar atravessado por telas e, logo, por uma posição brincante enrijecida, despotencializada e apartada de sua função inventiva. Um brincar que se constitui num certo “assistir”, ou “olhar”, ou “esperar”. Um brincar que não se faz exatamente fazendo, mas um

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