41 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade suposto brincar que diz de um campo de passividade. Um ato que já não tece modos de vida e experiências saudáveis e expande a criatividade dos sujeitos, mas um ato-passivo que se submete a alguma outra estrutura que fala mais alto, ou diz de mais longe, ou que é mais forte. Com tantas opções de estímulos e o tempo frente às telas aumentando gradativamente, seguimos com a afirmação potente de Winnicott, de que “Brincar é fazer” (1971/2019, p. 74). A partir desta proposição, surge uma aposta ético-política em uma prática (supostamente) objetiva e subjetiva: o resgate do brincar nos contextos das enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul, em 2024, prática que seguiu possível no Ambulatório de Saúde Mental Infantojuvenil (AmbuIJ)1 de Novo Hamburgo. Nosso ponto de partida é o abrigo provisório da FENAC, espaço em Novo Hamburgo que foi dedicado às famílias desabrigadas em decorrência das enchentes. Durante os meses de maio e junho, o espaço de eventos se tornou casa para milhares de moradores, além de centro de recolhimento e distribuição de doações. Com uma pequena cidade formada, iniciaram-se atuações e ações de diversas áreas da saúde e assistência pública do município. Considerando a impossibilidade de deslocamento para outras áreas da cidade, é estabelecida ali, então, uma centralidade de atendimentos e auxílios à comunidade. A saúde mental, com atendimentos singularizados e coletivos, busca acolher e ir ao encontro das possíveis necessidades e demandas dos novos moradores da pequena cidade-comunidade. E é aqui que se inaugura uma clínica do desejo através da Oficina do Brincar, proposta e iniciativa que parte dos trabalhadores da rede de saúde mental de Novo Hamburgo que, naquele momento, compunham a equipe responsável pelos cuidados às crianças e adolescentes. A Oficina se torna lugar em que o AmbuIJ posteriormente se insere e passa a fazer parte das dinâmicas e disposições de criação de novas vidas possíveis e devires-brincantes espontâneos. A proposta é simples: as crianças escolhem do que querem brincar, o que querem fazer, com os materiais que temos à disposição (e temos muitos!). Tintas, papéis, pincéis, canetas, bonecos, bonecas, carrinhos, e jogos são alguns dos itens que compõem as opções a serem 1 O Ambulatório de Saúde Mental Infantojuvenil (AmbuIJ) é um serviço de saúde mental da rede pública de Novo Hamburgo, é um dos componentes da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e se constitui como um equipamento territorial de cuidado ampliado em atenção psicossocial para crianças e adolescentes em sofrimento psíquico.
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