Infâncias na contemporaneidade

42 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade escolhidas. E a partir das escolhas feitas, a oficina do brincar tem seu ponto de partida com os instrumentos selecionados e com a criatividade dos integrantes posta à prova. Dentre as horas que compusemos a equipe da oficina do brincar, tivemos o privilégio e a possibilidade de enxergar inúmeras maneiras diferentes de brincar, atuar, agir e interagir com corpos tão pequenos mas que viviam, naquele tempo, dinâmicas de sofrimento tão complexas, sendo deslocadas de seus lares e vivendo temporariamente em uma nova casa. Através do brincar, na prática, vimos a riqueza que este espaço externo e interno possui e produz na vida daqueles que o exercem. Afinal, “é no brincar, e apenas no brincar, que a criança ou o adulto conseguem ser criativos e utilizar toda a sua personalidade” (Winnicott, 1971/2019, p. 92, 93). Em determinada cena, quando as crianças deveriam se voltar para uma roda para finalizarmos nosso momento naquele dia, um dos pequenos insistiu em seguir a brincadeira e não queria entrar na roda. Quando houve tentativa de convencê-lo, afirmou: “eu quero brincar”. E em poucas palavras, um importante posicionamento em defesa das infâncias, uma marca de lugar e espaço necessário para que aquela experiência fosse vivida, para que o brincar continuasse, nem que fosse por mais alguns instantes. Postergar o fim da atividade lúdica que permitia tanto. E talvez justamente nesse breve enunciado que conseguimos enxergar a potência e abrangência do brincar. O brincar como produtor de novos sentidos, de produção de vida. As três palavras foram o suficiente para certo convencimento dos que ali participavam, para talvez deixar o menino seguir ali, e não precisar necessariamente se juntar à roda, pelo menos não por enquanto. Afinal, por que impedir uma criança de seguir brincando? Movidos por essas e tantas outras experiências-narrativas, importamos, do abrigo da FENAC, a Oficina do Brincar para o cotidiano de trabalho no AmbuIJ. Com uma proposta parecida, compondo grupos de faixas etárias diferentes – crianças pequenas e crianças maiores – com um propósito de brincar semiestruturado. Neste contexto, disponibilizamos alguns materiais, instrumentos e brincadeiras, mas estes não necessariamente nos enclausuraram ao que tinha sido planejado – ao contrário, deixamos que as crianças conduzissem e articulassem suas próprias invenções através daquele tempo e espaço. Deu-se uma série de encontros, semanais, recheados de produções físicas, artísticas,

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