43 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade corporais, verbais e não-verbais, produtoras de fôlego e potência de vida nas tardes do ambulatório. [...] no mesmo dia ainda tínhamos proposto a Oficina do Brincar, um grupo de crianças e pré-adolescentes que estabelecemos sem exatamente uma estrutura ou fórmula pré-determinada, mas com a ideia e a premissa de brincar. Propor espaço. Propor brincadeira. Este dia em específico, [...] a missão de com 9 crianças fazer um certo circuito de momentos que demandou da equipe inúmeros processos. As crianças estavam mais agitadas, os corpos mais sedentos por alguma coisa - que não sei se nesse dia conseguimos distinguir o que era. Será que ouvir a criança consiste em ouvir a criança? Às vezes acho que sim, outras vezes penso que não. O que o corpo traz para além da palavra? Se deixar afetar o corpo. Ouvir a criança pela via do afeto, do contato, da respiração ofegante, do suor que escorre da testa. De um corpo cansado que não quer parar - por que não quer parar? Sobra energia ou falta a possibilidade de se haver com o silêncio? Palavras - sons, afetos. Possibilidades de um brincar infantil. O tanto que se faz enquanto se brinca. [...] teria mais algumas e algumas e algumas e algumas páginas para escrever, se em tudo fosse possível transformar palavra. Acontece que não é - e nem deveria ser. Tem coisas que ficam com a gente e nos moldam para além da palavra (Flesch, 2024). O brincar com as crianças nos lança diretamente a uma posição mais de aprendiz do que de mestre, mais de aluno do que de professor, mais de ouvintes/escutantes do que de estagiário de psicologia, ou psicólogo. Somos nós que estamos a todo o tempo re(aprendendo) a brincar, junto com as crianças. Revivendo nossa(s) infância(s) e tecendo novos fios possíveis, além de retocar os fios antigos das nossas próprias crianças. Para que possamos, enfim, em alto e bom som declarar as palavras: eu quero brincar – não só em uma oficina, mas como um dispositivo de uma clínica permanente. E, considerando que “o brincar é, por si só, uma terapia” (Winnicott, 1971/2019, p. 87), essas palavras nos acompanham como um sinal de vida, carregando a potência de novas histórias e novos caminhos.
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