53 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Esta observação sugere que não é a tecnologia, em si, que causa prejuízos de ordem interacional, mas sim o contexto no qual ela está inserida e o uso que é feito dela, pois quando os pais se mostram emocionalmente sintonizados com a criança, a presença da televisão ou de outro dispositivo pode não interferir negativamente na interação, como observado com o caso B, em que os pais tinham uma postura mais participativa na interação com o bebê. Apesar da literatura apontar que a presença da televisão de fundo tende a interferir nos comportamentos dos pais e do bebê (Pempek et al., 2014) e influir negativamente no engajamento dos pais com a criança (Kirkorian; Choi; Anderson, 2019), a presença emocional dos pais e o envolvimento dos mesmos para com ela pode atuar como uma barreira protetiva, não havendo espaço suficiente para que a tecnologia seja alvo de interesse da criança, uma vez que a criança poderia contar com pais aptos e disponíveis para interagir. Ambas as famílias fizeram uso da televisão de fundo quando estavam brincando com a criança, entretanto as interações dos pais com os bebês diferiram entre si. No caso da família B, as tentativas de envolvimento com o bebê, evidenciadas pelas conversas com a criança, denotavam a existência de um interesse parental sobre o que estava acontecendo com ela, o que favoreceu a conexão emocional com o bebê, e vice-versa. Por outro lado, na interação da família A, que também contou com a presença da televisão de fundo, apontou que a televisão ligada em alto volume no ambiente capturava a atenção do bebê, e dos pais, a maior parte do tempo da filmagem, o que acabou gerando pequenas interrupções nas trocas interativas estabelecidas entre as díades mãe- -bebê, pai-bebê, mãe-pai. Antônio, diante da televisão ligada, mostrou- -se mais suscetível à presença dela, voltando seu olhar para a televisão com maior frequência e assumindo uma posição passiva diante da tela. Além do volume alto, que chamava a sua atenção, os pais mostraram-se também menos ativos e responsivos, em comparação com os pais de Benício, não investindo no potencial da interação com a criança. Os pais de Antônio, especialmente a mãe, durante o momento de interação, apresentavam diversos brinquedos ao bebê na tentativa de que ele não buscasse pela televisão, o que também pode ter sido motivado pela desejabilidade social desta mãe. Além disso, foram evidenciadas poucas trocas de olhares entre eles, assim como uma maior
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