Infâncias na contemporaneidade

55 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade pais ainda comentaram na entrevista que essa é uma das situações em que precisam recorrer à tecnologia, no sentido de oferecer um apoio para a realização da atividade. Quando Benício está doente, e conforme relato dos pais “mais enjoadinho”, as telas contribuem para entreter a criança e faz com que a família experimente menos momentos conflitantes com a criança, o que na concepção deles beneficia a relação da tríade. Apesar das diferenças, a televisão ocupava uma posição de destaque nas duas residências e não era percebida como uma tecnologia propriamente dita, como sugere a fala da mãe Bianca: “(...) Eu não necessariamente olho pra ela, mas ela tá ali, sempre ligada.” Na família A percebe-se o uso como um hábito – a televisão ligada o tempo todo, fazendo parte do ambiente e das interações que ali se estabelecem e uma resistência diante das novas tecnologias. Na família B, o uso da televisão e smartphones, apesar de ser corriqueiro, parece ser mais orientado, relacionado ao suporte e ao passatempo. Considerações finais As cenas observadas sugerem que a interferência tecnológica na interação não depende, por si só, da presença ou ausência uma tela, mas principalmente se há tentativas de algum envolvimento emocional dos pais com a criança, o que está atrelado com os investimentos afetivos do adulto no bebê e de respostas contingentes da criança aos estímulos fornecidos pelo cuidador. Essa sincronia interativa adulto- -criança é multifatorial e depende também de componentes biológicos e comportamentais, os quais não foram analisados neste estudo. Pais emocionalmente disponíveis, em um contexto em que há a presença de mídias digitais e crianças pequenas, são fundamentais para que uma interação adulto-criança possa se estabelecer. Outro aspecto importante nessa discussão é a cultura digital das famílias, que diferem entre si principalmente no que se refere à idade dos pais, influenciando os padrões de uso da televisão e dos smartphones. O estudo aponta para a necessidade de mais pesquisas acerca da temática, com foco nas interações que envolvam também a figura do pai, pouco prevalente na literatura. Como possíveis limitações do estudo, pode-se destacar a desejabilidade social destes pais, uma vez que a filmagem pode ter inibido certos comportamentos e destacado outros, como uma maior estimulação do bebê, por exemplo. Ademais, as

RkJQdWJsaXNoZXIy MjEzNzYz