75 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Depois de contar as histórias, nas quais as crianças ansiavam pelo fim, em uma tentativa de realizar uma reflexão sobre o que foi lido sempre era rebatida pelas crianças com qualquer outro assunto, geralmente sobre sua semana. Ou, principalmente, sobre conteúdos consumidos na internet, sendo o que ocupava a maior parte do seu tempo vago em suas casas. O encontro com o universo infantil através da Oficina de Contos nos colocou diante de uma infância totalmente impactada pelo universo tecnológico e as brincadeiras virtuais do contemporâneo, além de crianças com problemas de socialização e dificuldades de aceitação do ambiente grupal. As brincadeiras, outrora tão orgânicas e criativas, vêm sendo substituídas por telas. Essa presença das telas tem intoxicado o cotidiano infantil. Dunker (2017) sugere que essa intoxicação digital pode ser promovida a uma certa psicopatologia, pois há “alteração do laço social, da economia de gozo e da relação de reconhecimento” (p. 119). Quando perguntadas se preferiam brincar pessoalmente ou na internet, unanimemente, as integrantes falavam: “na internet!’, afirmando que elas poderiam estar ao lado uma da outra, mas jogando no celular ao invés de outros modos de brincar, quebrando os ideais imaginários que há de infância, ou seja, as brincadeiras, e dando um choque de realidade sobre a contemporaneidade da infância. Esse assunto rendeu muitas discussões e insights sobre como está a construção da identidade infantil no mundo moderno e motivou a escrita deste artigo. Nesse sentido, Mendes (2020) afirma que a inserção da tecnologia e dos smartphones no cotidiano infantil não está apenas distanciando as crianças das suas famílias, também cativadas pelos aparelhos tecnológicos, mas também causando prejuízo ao aprendizado infantil, principalmente no desenvolvimento da linguagem e da simbolização. Nesse grupo, as duas meninas, com idades em que já é comum a leitura e a escrita, estão com dificuldades sérias de alfabetização, além de uma apresentar dificuldade de criar desenhos autorais. Essa realidade trouxe reflexões sobre como a substituição da leitura por histórias prontas do Youtube, por exemplo, podem estar impactando de forma negativa a formação subjetiva e cognitiva dessas crianças, afinal, hoje não se precisa mais ler, pois o áudio já está lendo por você. Não precisa mais imaginar, pois um vídeo pode demonstrar como o mundo do faz de conta se parece.
RkJQdWJsaXNoZXIy MjEzNzYz