76 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Em meio a um mundo moralista e dualista, o desafio que a contemporaneidade nos convida é se encontrar com esses impasses que a nova infância traz, não buscando apenas problematizar, mas compreender como a tecnologia participará do desenvolvimento infantil na nova geração alpha. Como discorre Alves (2025), as tecnologias têm um impacto no desenvolvimento e na socialização infantil, mas também trazem a possibilidade de diversos recursos educativos e didáticos, um repertório imenso de conhecimento que, se bem utilizado, pode ser benéfico para a educação da criança e desenvolvimento saudável de seu mundo simbólico. Há uma dualidade que deve ser balanceada e pensada. O grupo da Oficina de Contos, do turno da tarde, contou com três crianças apaixonadas pela internet, sempre trazendo novidades sobre o universo infantil e os memes viralizados, seja através do jogo BrookeHaven, do Roblox, dancinhas do Tiktok, tralalero tralala ou vídeos do Youtube. Crianças que passaram seus anos de ouro para a construção de seu aparelho psíquico na pandemia do COVID-19, quando as telas apresentaram uma presença ilustre na maior parte das casas, inclusive por demanda das instituições de ensino (Silva, 2023). Os momentos de brincadeiras coletivas e histórias antes de dormir têm sido cada vez mais substituídos por máquinas, gerando dificuldades de sono (insônia, por exemplo), dificuldades de relacionamento e aprendizagem nas crianças (Diniz, 2013). Todavia, como tornar esse hábito perdido algo novamente presente? Torna-se necessário que os pais compreendam o que se perde quando telas ocupam o espaço da imaginação e do vínculo, considerando que as crianças visualizam tantas histórias com explosões de estímulos que as contadas pela noite perdem o brilho – isso quando os próprios pais não desistem da ideia antes de sequer tentá-la. Dufour (2004/2005) discorre sobre o conceito de “terceiro pai”, referindo-se à televisão, que tem ocupado o lugar parental das crianças, as inserindo na sociedade e na cultura ao invés de seus pais. A autora Lacerda (2021) traz em sua escrita uma síntese das recomendações relacionadas ao uso da tecnologia na infância, conforme a Organização Mundial da Saúde (2019), e outras relacionadas à saúde e infância, onde é possível observar que a exposição prolongada às telas não é benéfica ao desenvolvimento infantil, repercutindo no sono, na aprendizagem e na construção dos afetos das crianças. As recomenda-
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