91 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Introdução A infância, enquanto fase de formação emocional, cognitiva e simbólica, está cada vez mais atravessada por acontecimentos globais que tensionam as noções tradicionais de desenvolvimento e proteção. Entre esses acontecimentos, a crise climática emerge como um dos mais impactantes, não apenas por seus efeitos materiais, como desastres, deslocamentos e escassez de recursos, mas também por sua forte carga simbólica e emocional (Hickman et al., 2021; Pihkala, 2020). Viver e crescer em um mundo que enfrenta tantas mudanças no contexto ambiental pode ser um grande desafio, uma vez que a crise climática afeta a maneira como as crianças percebem o futuro, se relacionam com o planeta e constroem a sua subjetividade. Termos como ecoansiedade e solastalgia passaram a nomear experiências emocionais marcadas pelo medo de que o mundo acabe, pela tristeza diante da destruição de paisagens e vínculos afetivos, e pela culpa por não saber como agir ou reagir (Hickman, 2024; Léger-Goodes et al., 2023; Mercer, 2022). Essas experiências, ainda que legítimas, muitas vezes permanecem invisibilizadas ou desqualificadas pelos adultos. Embora as crianças estejam entre os grupos mais afetados por eventos climáticos extremos, suas vozes ainda são frequentemente silenciadas, tanto na produção científica quanto nas políticas públicas de enfrentamento da crise climática (NCPI, 2025). A escassez de estudos brasileiros voltados à saúde mental infantil frente à emergência ambiental reforça essa lacuna, obrigando pesquisadores a recorrer majoritariamente à literatura internacional. Em contrapartida, os desastres recentes ocorridos no Brasil, especialmente as enchentes no estado do Rio Grande do Sul, ocorridas em 2024, evidenciam a urgência de se considerar as crianças como sujeitos ecológicos, éticos e afetivos (Ortega, 2025; NCPI, 2025). Diante deste cenário, propõe-se uma reflexão crítica sobre o lugar das infâncias na contemporaneidade, diante da iminência de uma crise climática. A partir de uma breve revisão teórica, buscou-se explorar como crianças vivenciam e elaboram a ecoansiedade, quais formas de acolhimento e cuidado têm sido mobilizadas, e de que maneira as políticas públicas podem responder a esse sofrimento. A análise articula contribuições de autores internacionais com exemplos empíricos nacionais, indicando caminhos para o fortalecimento de uma escuta ativa e responsável das infâncias em tempos de emergência ecológica.
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