Infâncias na contemporaneidade

92 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade O conceito de ecoansiedade e sua evolução A ecoansiedade tem sido compreendida como uma resposta emocional crônica à crise ecológica e climática, marcada por sentimentos persistentes de angústia, medo, culpa, impotência e desesperança. Ainda que não seja considerada uma patologia clínica, trata-se de um fenômeno psicossocial que afeta significativamente o bem-estar emocional de crianças, jovens e adultos (Cossmann, 2013). Mais do que uma emoção isolada, a ecoansiedade envolve um conjunto complexo de reações afetivas diante da percepção crescente sobre a degradação ambiental e os riscos que ela impõe ao futuro do planeta (Hickman et al., 2021). Essa experiência pode se manifestar de maneiras distintas: em algumas pessoas, mobiliza atitudes positivas e engajamento; em outras, gera uma sensação de impotência e paralisia emocional (Pihkala, 2020). Quando vivida com intensidade, a ecoansiedade pode atravessar os limites do cuidado ambiental e se tornar um fator de sofrimento psíquico, interferindo na saúde mental, no sono, na concentração e na esperança (Pihkala, 2020). A ecoansiedade nas crianças: percepções, reações e enfrentamento A vivência da ecoansiedade entre crianças não se restringe apenas àquelas diretamente afetadas por eventos climáticos extremos. Mesmo em contextos nos quais os desastres ainda não ocorreram, crianças com idades entre 8 e 12 anos têm demonstrado significativa preocupação com o futuro do planeta e sentimentos complexos relacionados à crise ambiental. Estudos recentes, conduzidos em contextos escolares e comunitários, têm contribuído para revelar como as crianças processam emocionalmente as informações climáticas e desenvolvem diferentes formas de enfrentamento (Hensler et al., 2025; Léger-Goodes et al., 2023). As pesquisas apontam que muitas crianças já compreendem, ainda que parcialmente, as causas e consequências das mudanças climáticas. Elas reconhecem a relação entre ações humanas e impactos ambientais e são capazes de articular narrativas sobre o futuro baseadas em preocupações reais, não apenas fantasias. Entre os sentimentos mais recorrentes, destacam-se o medo de que a Terra deixe de ser habitável, a tristeza diante da perda de espécies e florestas e a culpa por não conseguir “fazer o suficiente” para reverter a situação (Léger-Goodes et al., 2023).

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