Infâncias na contemporaneidade

94 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade colapso ambiental e espaços de participação infantojuvenil (Hickman, 2024; Hickman et al., 2021), o Brasil ainda permanece preso a uma perspectiva adultocêntrica que tende a deslegitimar as manifestações emocionais das crianças. Expressões de medo, tristeza ou raiva são frequentemente tratadas como “drama” ou “exagero”, o que contribui para a invisibilização do sofrimento infantil e para o enfraquecimento de suas possibilidades de simbolização e elaboração psíquica (Léger- -Goodes et al., 2023). Romper com esse ciclo de silenciamento é uma tarefa urgente. Exige-se o reconhecimento da criança como sujeito ecológico e político, dotado de sensibilidade, pensamento crítico e capacidade de posicionamento diante dos desafios ambientais. A superação dessas lacunas demanda investimento em pesquisa científica, formulação de políticas públicas integradas e práticas institucionais comprometidas com a escuta, o cuidado e a justiça climática (NCPI, 2025). Enchentes no Rio Grande do Sul Entre abril e maio de 2024, o estado do Rio Grande do Sul enfrentou uma catástrofe climática sem precedentes (Porto Alegre, 2024). As chuvas intensas provocaram enchentes em dezenas de municípios, afetando mais de 2,4 milhões de pessoas, interrompendo o funcionamento de centenas de escolas e deslocando milhares de famílias (Ortega, 2025). Em meio a esse cenário, crianças estavam entre as mais atingidas, não apenas pelas perdas materiais e instabilidade social, mas também pelas consequências subjetivas e emocionais do desastre. Relatos de crianças veiculados pela mídia evidenciam a gravidade da situação. Maria Luiza, de 11 anos, afirmou: “Eu tinha perdido meu roupeiro, minha cama… a gente recebeu muitas doações” (Ortega, 2025). Vinícius, de 10 anos, contou ter sido resgatado de barco junto com o irmão e relatou a experiência de permanecer sete dias sem luz, água ou internet (Ongaratto, 2024). Tais vivências apontam para rupturas nas rotinas afetivas, espaciais e temporais, aspectos centrais para o sentimento de segurança e continuidade psíquica durante a infância. Especialistas da área da saúde mental destacaram que a suspensão do brincar é um dos primeiros sinais de sofrimento psicológico em contextos de crise, até porque o brincar é um dos principais indicadores de saúde mental na infância (Becker et al., 2022). A psicóloga Carla Maia, em entrevista à Revista Crescer (2024), afirmou que “se a criança

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