Infâncias na contemporaneidade

95 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade não estiver brincando, esse é o primeiro sinal de sofrimento”. Essa observação é corroborada por estudos em Psicologia do desenvolvimento e do trauma, que indicam que o brincar funciona como espaço simbólico fundamental para a expressão emocional e a elaboração de experiências potencialmente traumáticas (Winnicott, 1975). Winnicott (1975) conceitua o brincar como um espaço intermediário entre o mundo interno e a realidade externa, no qual a criança pode experimentar, transformar e integrar vivências. Na clínica psicológica, é por meio do brincar que a criança se expressa. Logo, em situações de emergência, como desastres naturais, o brincar torna-se ainda mais essencial, pois permite à criança nomear o que sente, reconstituir vínculos e ressignificar perdas (Queiroz; Maciel; Branco, 2006). A ausência do brincar, por outro lado, indica que algo não vai bem, e pode sinalizar sofrimento psíquico ou risco de transtornos pós-traumáticos (Almeida et al., 2017). Ações de acolhimento Em resposta ao sofrimento psíquico das crianças afetadas pelas enchentes, emergiram ações institucionais e voluntárias que buscaram reativar o brincar como ferramenta de cuidado, reconstrução simbólica e fortalecimento dos vínculos afetivos. Um exemplo emblemático foi a criação de brinquedotecas em abrigos por iniciativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), que mobilizou psicólogos, pedagogos e estudantes para oferecer ambientes lúdicos de escuta e expressão (PUCRS, 2024). Também no abrigo cedido pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), ações voltadas para as crianças foram pensadas, priorizando espaços para que as elas pudessem brincar, assim como uma sala infantil para oferecer um acolhimento individualizado (Bom dia Brasil, 2024, Unisinos, 2024a; Unisinos, 2024b). Paralelamente, muitos municípios acolheram práticas baseadas na chamada “pedagogia de emergência”, abordagem que reconhece o brincar como um recurso terapêutico em situações de trauma coletivo. Crianças em situação de abrigamento tiveram acesso a atividades de expressão artística, contação de histórias e jogos simbólicos que favoreciam a reconstrução do sentimento de pertencimento e segurança subjetiva (Ortega, 2025; PUCRS, 2024).

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