Infâncias na contemporaneidade

96 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Nesse mesmo horizonte, destaca-se o projeto “Atuação para a garantia dos direitos dos bebês e suas famílias atingidas pelas enchentes de maio de 2024”, uma articulação entre a Rede Estadual pela Primeira Infância (REPI-RS), o Primeira Infância Melhor (PIM), a OMEP de Novo Hamburgo e a United Way Brasil. A iniciativa, em curso nos municípios de Porto Alegre, Canoas, Novo Hamburgo, Guaíba, Três Coroas e Eldorado do Sul, promoveu a formação de equipes interdisciplinares, entre elas visitadores, e a entrega de kits lúdico-educativos voltados à promoção do desenvolvimento infantil. Ao criar espaços coletivos de apoio nos abrigos, esse projeto reafirma a centralidade do brincar como dispositivo de acolhimento, escuta sensível e resgate da rotina e da afetividade em meio ao caos (Rio Grande do Sul, 2025). Apesar do impacto positivo dessas iniciativas, elas foram pontuais e limitadas, destacando-se a necessidade de desenvolver intervenções adequadas para esse público e contexto, as quais possam ser aplicadas em situações futuras. A ausência de diretrizes públicas, diagnósticos sistemáticos e continuidade nas ações intersetoriais compromete o alcance e a efetividade das estratégias. Como já indicado pelo NCPI (2025), a falta de integração entre saúde mental, educação ambiental e assistência social reflete a invisibilidade histórica da infância nas políticas de enfrentamento da crise climática no Brasil. Torna-se urgente, portanto, que as experiências locais sejam sistematizadas e ampliadas por meio de políticas públicas que reconheçam o brincar não apenas como um direito, mas como uma forma de cuidado e resistência em contextos de crise climática. O investimento em escuta qualificada, a formação de profissionais e a criação de ambientes de acolhimento podem fazer a diferença na trajetória psíquica de crianças que enfrentam os efeitos diretos da emergência ambiental. Considerações finais Este texto buscou lançar luz sobre uma dimensão ainda pouco visibilizada no debate sobre mudanças climáticas: o impacto emocional e psíquico da crise ambiental sobre as nossas crianças. Através de uma revisão teórica e da análise de um caso emblemático, as enchentes no estado do Rio Grande do Sul em 2024, procurou-se compreender como experiências de perda, instabilidade e medo vêm atravessando as infâncias na contemporaneidade e produzindo formas legítimas de sofrimento, como a ecoansiedade.

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