Infâncias na contemporaneidade

INFÂNCIAS na contemporaneidade TAGMAMARINA SCHNEIDER DONELLI, ANA PAULA SPINELLI MOREIRA, CAMILAJULIANA SPINDLER, CAMILLY MARTIGNONI BONFADA, GABRIELLE SINKARCZUK DE QUADROS, LETÍCIA FERRAZ NEIS, PÂMELA DAMOTTA BROILO, PRISCILA RAZERA KUHN, SHELDA PADILHA BLANCO VIEIRA, STHEFANY GRAZIELA ZWETSCH GOMES - ORGANIZADORAS CASA LEIRIA SÉRIE CADERNOS DO PAAS | VOLUME 12

Chegamos à 12ª edição do Cadernos do PAAS cientes do desafio de ter como tema as infâncias na contemporaneidade. Há tempos em que ser criança ocupa cada vez menos espaço. Etapas são antecipadas, agendas ficam cheias e compromissos excessivos comprimem a espontaneidade, priorizam o desempenho e reduzem o tempo da curiosidade, do brincar e da descoberta. Mas falar em infâncias é reconhecer que não há um único modo de ser criança. Cada uma carrega singularidades e, ao mesmo tempo, expressa a potência criadora que habita o brincar e a imaginação. Esta edição se apresenta como gesto de resistência e defesa das infâncias, um convite a olhar para além das patologizações e das perdas, reafirmando que ser criança hoje é múltiplo e diverso. Reafirmamos também nossa esperança em um futuro que se constrói no presente, pelas mãos de estudantes, profissionais e comunidades que apostam em um fazer ético-político capaz de acolher e proteger as crianças em suas muitas formas de existir. Assim, este volume convida a pensar a infância não apenas como destino, mas como potência em movimento, viva e plural.

Série Cadernos do PAAS | Volume 12 Infâncias na contemporaneidade

UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS UNISINOS Reitor Prof. Dr. Pe. Sergio Eduardo Mariucci, S. J. Vice-reitor Prof. Dr. Artur Eugênio Jacobus CASA LEIRIA Rua do Parque, 470 93020-270 São Leopoldo-RS Brasil casaleiria@casaleiria.com.br

Série Cadernos do PAAS | Volume 12 casa leiria São leopoldo/rs 2025 Tagma Marina Schneider Donelli Ana Paula Spinelli Moreira Camila Juliana Spindler Camilly Martignoni Bonfada Gabrielle Sinkarczuk de Quadros Letícia Ferraz Neis Pâmela da Motta Broilo Priscila Razera Kuhn Shelda Padilha Blanco Vieira Sthefany Graziela Zwetsch Gomes (ORGANIZADORAs) Infâncias na contemporaneidade

INFÂNCIAS NA CONTEMPORANEIDADE Cadernos do PAAS, volume 12 DOI https://doi.org/10.29327/5676001 Editoração: Casa Leiria Capa: Ana Paula Spinelli Moreira, Camilly Martignoni Bonfada, e Letícia Ferraz Neis Imagens da capa: Eliza Roth da Costa, Gabriel Marques Pereira e Manuela Calderon Schmitt Revisão: Comissão Cadernos do PAAS Os textos e as imagens são de responsabilidade de seus autores. Ficha catalográfica Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Bibliotecária: Carla Inês Costa dos Santos – CRB 10/973 I43 Infâncias na contemporaneidade [recurso eletrônico] / Organização Tagma Marina Schneider Donelli…[et.al.] ; Projeto de Atenção Ampliada à Saúde (PAAS), Universidade do Vale do Rio dos Sinos. São Leopoldo : Casa Leiria, 2025. – (Cadernos do PAAS, v.12.). Disponível em: <http://www.casaleiriaacervo.com.br/servico social/cadernosdopaas/vol12/index.html> ISBN 978-85-9509-167-2 1. Saúde – Estudo e ensino. 2. Projetos de ação social – Saúde. 3. Serviço escola interdisciplinar. 4. Saúde – Formação profissional – Projeto interdisciplinar. 5. Serviço escola – Processos de aprendizagem e cuidado. 6. Infância e contemporaneidade – Projeto de Atenção Ampliada à Saúde. I. Donelli, Tagma Marina Schneider (Org.). II. Universidade do Vale do Rio dos Sinos. III. Projeto de Atenção Ampliada à Saúde (PAAS). IV. Série. CDU 214.2

7 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade SUMÁRIO Entre memórias e futuros: a infância como potência Camila Juliana Spindler, Camilly Martignoni Bonfada, Letícia Ferraz Neis, Priscila Razera Kuhn e Tagma Marina Schneider Donelli .................................................................. 10 Interações indivisíveis Celso Gutfreind ............................................................................................. 14 A contratransferência na clínica psicanalítica da infância Rogério Isotton e Tagma Marina Schneider Donelli ....................................... 15 A implicância enquanto forma de potencialização e representatividade para crianças negras na escola Fabiana Andressa Rodrigues da Silva e Luciano Bedin da Costa .................. 27 Ainda brincar: infâncias além das telas e insistências possíveis no devir-brincante Arthur Henrique Heitelvan Flesch e Cristian da Cruz Chiabotto .................. 36 A televisão e os smartphones na interação pai-mãe-bebê: um estudo observacional Débora Becker, Tonantzin Ribeiro Gonçalves e Tagma Marina Schneider Donelli .................................................................. 46 Comportamento alimentar na infância e práticas parentais: relato de experiência Pâmela da Motta Broilo, Eduarda Zohler Wirth, Vitória Damasceno Teixeira, Fernanda Lenz Fortes, Lovaine Rodrigues e Melina Lima ................................................................. 59 Da fantasia à tecnologia: desafios das infâncias contemporâneas na Oficina de Contos Camilly Martignoni e Michele Scheffel Schneider ............................................ 73 Desafios e Reflexões sobre os Processos de Psicodiagnóstico Infantil em um Serviço-Escola Priscila Razera Kuhn e Melina Lima ........................................................... 80

8 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Infância contemporânea e a crise do cuidado em tempos de emergência climática Daiane Formolo Portinho, Débora Becker e Tagma Marina Schneider Donelli .................................................................. 90 Infâncias plurais no Brasil Contemporâneo Dâmaris SantAnna .................................................................................... 100 Narrar para existir: infância, violência e estratégias de sobrevivência QUEER Ruan Carlos Sansone .................................................................................. 118 O celular na vida do bebê: o olhar dos pais Débora Becker, Daiane Formolo Portinho e Tagma Marina Schneider Donelli ................................................................ 132 O olhar das crianças sobre o cuidado integral pelos avós Lorrani Staudt Silveira e Tagma Marina Schneider Donelli ........................ 143 Os brincares na contemporaneidade Débora Becker, Daiane Formolo Portinho, Tagma Marina Schneider Donelli e Marcia Inez Luconi Viana .................. 155 Ressignificando as infâncias: os desafios da educação frente à transformação digital Fabiana Machado e Rosana Cabral .............................................................. 163 Sobre as organizadoras ...................................................................... 175

Manuela Calderon Schmitt – Ser criança é acreditar que tudo é possível

Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade 10 Entre memórias e futuros: a infância como potência Camila Juliana Spindler1 Camilly Martignoni Bonfada2 Letícia Ferraz Neis3 Priscila Razera Kuhn4 Tagma Marina Schneider Donelli5 O Cadernos do PAAS chega à sua 12ª edição como um espaço de reflexão e memória, reunindo vozes, experiências e práticas de um serviço-escola que, ano após ano, se propõe a escrever seus fazeres junto com a comunidade. É uma publicação feita de encontros, de movimentos e de um exercício coletivo de pensar o cuidado em sua forma ampliada, atravessando territórios, histórias e políticas públicas. Este volume, em especial, dedica-se a um tema que exige delicadeza: as infâncias na contemporaneidade. Uma dimensão que convoca, além do cuidado, o compromisso e a responsabilidade. Falar em infâncias, no plural, é reconhecer que não há uma única maneira de ser 1 Acadêmica do Curso de Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e Estagiária de Psicologia no Programa de Atenção Ampliada à Saúde (PAAS). E-mail: camilajulianaspindler@gmail.com. 2 Acadêmica do Curso de Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e Estagiária de Psicologia no Programa de Atenção Ampliada à Saúde (PAAS). E-mail: cbonfada@edu.unisinos.br. 3 Psicóloga, técnica no Programa de Atenção Ampliada à Saúde (PAAS) Unisinos, Mestre em Psicologia Clínica pela Unisinos. E-mail: leticiafn@unisinos.br. 4 Acadêmica do Curso de Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e Estagiária de Psicologia no Programa de Atenção Ampliada à Saúde (PAAS). E-mail: prkuhn@edu.unisinos.br. 5 Psicóloga, Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Professora do Curso de Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e Supervisora de Psicologia no Programa de Atenção Ampliada à Saúde (PAAS). Bolsista de produtividade em pesquisa (PQ) nível 2 do CNPq. E-mail: tagmad@unisinos.br. DOI https://doi.org/10.29327/5676001.1-1

11 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade criança. Há infâncias atravessadas por desigualdades sociais, étnico-raciais, econômicas e de gênero. Infâncias que se fazem nos becos das cidades, nas famílias, nas escolas, nas brincadeiras, nas instituições de acolhimento, nos serviços de saúde. Cada uma delas é uma narrativa singular, tecida por forças históricas e culturais, mas também pela potência criadora que habita o brincar, a imaginação e a resistência. Vivemos tempos em que a tecnologia se entrelaça ao cotidiano das crianças de maneira intensa. Telas que brilham cedo, conteúdos que circulam com velocidade, redes que conectam e isolam. Há algo de novo e, ao mesmo tempo, inquietante no modo como a infância se reconfigura nesse cenário: mudanças no aprendizado, no lazer, nas formas de socialização e até nas formas de sofrimento. Há uma ambiguidade que compõe cada linha de construção da infância. A contemporaneidade traz consigo o risco de patologizar e medicalizar a infância, mas também abre a possibilidade de construir olhares mais atentos, compreensivos e singulares. Diante dessa pluralidade, torna-se urgente um olhar que acolha a complexidade. Que compreenda que o desenvolvimento infantil não se faz apenas na relação com a família, mas também nas instituições, nos serviços de saúde, nas comunidades. Um olhar que se comprometa com os direitos fundamentais das crianças, com a proteção, com a educação, com a saúde e com o brincar, tão essencial e humano. Esta edição nasce do desejo de partilhar reflexões, de provocar perguntas e de narrar práticas que não apenas registram, mas também tensionam o presente. O Cadernos do PAAS, ao longo dos anos, tem sido mais do que uma publicação: é uma prática de formação e uma forma de produzir diálogo. É um convite para que possamos olhar para a infância não como um destino, mas como uma potência em movimento que é viva e plural. Nesta 12ª edição do Cadernos do PAAS, iniciamos com o poema “Interações indivisíveis”, a partir do olhar de Celso Gutfreind sobre as infâncias. É uma forma de nos aproximarmos, com ritmo e gentileza, das infâncias que encontraremos nas páginas seguintes. Nelas o nosso leitor6 também vai se deparar com desenhos feitos por crianças 6 O uso do pronome masculino neste texto segue a convenção da língua portuguesa para o gênero gramatical neutro, adotado tradicionalmente para se referir a grupos mistos ou quando o gênero dos indivíduos não é especificado. Reconhecemos que essa prática não contempla todas as identidades de gênero e estamos comprometidos com uma linguagem mais inclusiva sempre que possível.

12 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade usuárias do PAAS que participaram de um concurso cultural para a escolha da capa desta edição. O Concurso de Desenhos do Cadernos do PAAS 2025 convidou crianças, jovens e adultos a responderem à pergunta: “O que é ser criança hoje?”. Assim, ao folhear essas páginas, serão encontradas mais do que ilustrações, veremos desenhos que nos lembram que a infância fala sem palavras e que há modos singulares de viver e sonhar. Assim, este volume se faz também uma galeria: um espaço onde a arte e o cuidado se encontram e a infância se reinventa em múltiplas linguagens. Na sequência, apresentamos o texto “A contratransferência na clínica psicanalítica da infância”, que traz à tona o quão essencial são as sensações e sentimentos do analista para modelar as intervenções com crianças em um contexto de trauma precoce. Em seguida, “A implicância enquanto forma de potencialização e representatividade para crianças negras na escola” ressalta a importância do acolhimento e da legitimização das experiências de crianças negras, sobretudo a partir do relato de representatividade dos autores no espaço escolar. Na sequência, o texto “Ainda brincar: infâncias além das telas e insistências possíveis no devir-brincante”, vemos a partir da experiência de Oficinas do Brincar um convite ao resgate do devir-brincante. Em “A televisão e os smartphones na interação pai-mãe-bebê: um estudo observacional” as autoras abordam o uso de telas no desenvolvimento socioemocional das crianças e a disponibilidade emocional dos pais como um aspecto relevante na forma como este uso ocorre. Nos textos a seguir encontramos o relato de experiência de três ações do PAAS. Em “Comportamento alimentar na infância e práticas parentais: relato de experiência” podemos avaliar a importância da orientação parental no manejo de comportamentos alimentares, a partir do relato de experiência do acompanhamento de um caso. No texto adiante, “Da fantasia à tecnologia: desafios das infâncias contemporâneas na Oficina de Contos”, as autoras relatam o uso dos livros e da fantasia em contraponto ao uso de tecnologias. E no texto “Desafios e Reflexões sobre os Processos de Psicodiagnóstico Infantil em um Serviço-Escola”, as autoras discutem os processos de psicodiagnóstico infantil, com seus desafios e implicações para uma formação profissional reflexiva e questionadora acerca dos diagnósticos na infância. Os textos seguintes retratam temas atuais que interseccionam raça, gênero e vulnerabilidade social. “Infância Contemporânea e a Cri-

13 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade se do Cuidado em Tempos de Emergência Climática” evidencia a urgência em se pensar o desenvolvimento socioemocional infantil a partir das experiências vividas em desastres ambientais e atuais crises climáticas. Já em “Infâncias plurais no Brasil Contemporâneo” a autora nos põe a pensar sobre os marcadores sociais, sobretudo o racismo estrutural, e a diversidade dos modos de ser criança. E “Narrar para existir: infância, violência e estratégias de sobrevivência Queer” apresenta um relato de experiência sobre os processos de se reconhecer como uma criança Queer e resistir às formas de exclusão do espaço escolar. Na sequência, “O celular na vida do bebê: o olhar dos pais” avalia o espaço que os celulares passaram a ocupar na vida das crianças na perspectiva dos cuidadores. Já em “O olhar das crianças sobre o cuidado integral pelos avós” traz as percepções das crianças sobre essa configuração familiar, evidenciando sentimentos ambivalentes, mas positivos e singulares sobre como reconhecem esta experiência. Por fim, em “Os brincares na contemporaneidade” é analisada a construção da cibercultura infantil, e em “Ressignificando as infâncias: os desafios da educação frente à transformação digital” as autoras problematizam a era digital como recurso potencial e de risco às aprendizagens na infância. Agradecemos aos autores que contribuíram para a construção dessa edição, oferecendo reflexões que ampliam nosso olhar sobre as infâncias na contemporaneidade. Reconhecemos também a colaboração dos cursos de graduação em Psicologia, Enfermagem, Nutrição e Medicina, bem como o apoio da Diretoria de Graduação (DGRAD) e da Ação Social que, ao viabilizarem a concretização de mais uma edição do Cadernos do PAAS, reforçam a aposta em uma educação amparada na prática interdisciplinar e coletiva que é o cerne desta publicação. Que esta edição possa lançar luz sobre o desafio que nos atravessa: reconhecer a criança como sujeito de direitos, protagonista de sua própria história, e não apenas como destinatária de políticas, mas como alguém que também nos ensina a construir mundos.

Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade 14 Interações indivisíveis Celso Gutfreind1 Um traço de sombra no olho direito redesenha o rosto inteiro detalhe de cor na pele exposta à pele do olhar do outro um toque de ponta de dedo no dedo o corpo se oferece a outro corpo e as almas se multiplicam em uma alma só 1 Psiquiatra pela Fundação Universitária Mário Martins (FUMM) e ABP, psicanalista de crianças e adultos, membro titular da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (SBPdePA), com funções didáticas. Escritor com 55 livros publicados, em diversos gêneros e com muitas premiações. DOI https://doi.org/10.29327/5676001.1-2

15 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade A contratransferência na clínica psicanalítica da infância Rogério Isotton1 Tagma Marina Schneider Donelli2 Resumo: Por meio do caso clínico de uma menina de dez anos, separada de seus pais biológicos aos dois e adotada aos cinco, buscou-se compreender as manifestações e o manejo da contratransferência em uma análise com frequência semanal de duas sessões, durante o período de um ano. A relação com a criança é intensa e visceral, exigindo alta habilidade na condução do material que emerge do analista. A ludicidade e o brincar são elementos por meio dos quais o profissional pode manifestar e se colocar ativamente, guiando-se pela sua própria subjetividade. As crianças traumatizadas em seu desenvolvimento primário apresentam desafios importantes, que encontram na contratransferência o caminho para dar forma ao material codificado, que surge da ludicidade e do brincar no setting terapêutico. A utilização das sensações e sentimentos do analista é essencial para modelar as intervenções em um contexto essencialmente lúdico contornado pelas fronteiras do setting analítico. Palavras-chave: infância; psicanálise; contratransferência. 1 Psicólogo, psicanalista, membro do Círculo Psicanalítico do RS (CPRS), doutorando em Psicologia Clínica pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). E-mail: risotton@gmail.com. 2 Psicóloga, Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Professora do Curso de Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e Supervisora de Psicologia no Programa de Atenção Ampliada à Saúde (PAAS). Bolsista de produtividade em pesquisa (PQ) nível 2 do CNPq. E-mail: tagmad@unisinos.br. DOI https://doi.org/10.29327/5676001.1-3

16 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Introdução A psicanálise teve início a partir do desejo de Freud de compreender e desvendar o funcionamento da mente humana, considerando o comportamento e os sintomas que suas pacientes histéricas apresentavam. Sua curiosidade e intenso desejo de fazer da psicanálise uma ciência levou Freud a desenvolver o método psicanalítico, integrando teoria e prática. Suas observações, reflexões, hipóteses e trocas com colegas aprimoravam a teoria e geravam avanços na prática clínica. Freud e seu grupo edificaram o que atualmente embasa a prática clínica de muitos profissionais. Dentre todo o aparato conceitual e clínico desenvolvido ao longo da história da psicanálise, destaca-se para este estudo o conceito e instrumento técnico denominado contratransferência. O objetivo do presente artigo é compreender as manifestações e o manejo da contratransferência na análise infantil. Pretende-se refletir e discutir o conceito vinculado à análise infantil, com frequência semanal de duas sessões, ao longo de um ano, de uma menina de dez anos que foi separada de seus pais biológicos aos dois anos e adotada aos cinco. Inicialmente, será abordado o conceito e a evolução da técnica psicanalítica a respeito da contratransferência e, em seguida, será apresentado um recorte clínico que evidencia o material contratransferencial. A contratransferência no percurso histórico da psicanálise Em 7 de junho de 1909, Freud endereçou uma carta a Jung contendo sua percepção sobre o envolvimento entre Jung e sua primeira paciente, Sabina Spielrein. Ele nomeou os sentimentos do psicanalista suíço em relação à paciente como contratransferência (gegenübertragung) e afirmou ser um “problema permanente” (Freud; Jung, 2023, p. 336) para os analistas. Pontuou que o contato com experiências transferenciais intensas no contexto clínico seria difícil de evitar, e, ao mesmo tempo, necessárias. Serviria para o desenvolvimento de uma “carapaça” (Freud; Jung, 2023, p. 336) suficientemente espessa e para aprimorar o domínio da contratransferência. Jung concordou com o posicionamento de Freud e nomeou seus afetos como “superestima intelectual” (Freud; Jung, 2023, p. 337). O assunto transcorreu em torno da inevitabilidade dos processos transferenciais e contratransferenciais, e da in-

17 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade viabilidade da atuação da contratransferência (Freud; Jung, 2023). Esse é um dos primeiros diálogos, na história psicanalítica, sobre essa temática. Observa-se que estavam descobrindo, dialogando e compreendendo a psicanálise no contexto empírico. Em 30 e 31 de março de 1910, ocorreu o II Congresso Internacional de Psicanálise, em que Freud (1910) apresentou a contratransferência à sociedade psicanalítica como uma possível inovação. Afirmou que seria um fenômeno que ocorre quando os sentimentos inconscientes do psicanalista são mobilizados pelo paciente por meio da transferência. Freud (1910) indicou a autoanálise como um caminho necessário para o desenvolvimento do domínio da contratransferência. Como um ponto de atenção permanente para o analista, Freud reconheceu que a contratransferência ocorre constantemente e, por se tratar de afetos que inundam subjetivamente o profissional, poderia se tornar um problema caso não tivesse realizado uma análise profunda de si mesmo. A autoanálise, que posteriormente cedeu lugar à análise, tornou-se um caminho sem volta na formação do psicanalista. Freud (1910) afirmou que o tratamento de um paciente avança até o ponto em que os complexos e resistências do analista permitirem. Compreende-se, portanto, que o processo de autoconhecimento é o primeiro passo para que um analista possa fazer uso adequado da contratransferência como instrumento técnico. Ferenczi (1919; 1927) reforçou fortemente a necessidade da análise na formação psicanalítica. Segundo o psicanalista húngaro (1919), o analista não deve se entregar aos seus afetos e, ao mesmo tempo, não deve escondê-los ou negá-los, tornando-se frio na relação com o paciente. Ele deveria ser capaz de desempenhar seu papel na transferência e ter o domínio da contratransferência. Dito de outra forma, para que o analista não atue seus afetos, deve compreendê-los profundamente. Ferenczi (1919; 1927; 1932), em sua obra, elevou a importância da contratransferência ao nível de outros fenômenos que ocorrem no setting analítico. O enfant terrible da psicanálise condicionou à análise o desenvolvimento da capacidade de não atuar os afetos e, ao mesmo tempo, não os esconder, tornando-se apto para “sentir com” e para desempenhar seu ofício com modéstia, humildade, empatia, paciência e controle do próprio narcisismo. Ferenczi (1919; 1927) deu início ao que diversos psicanalistas (Heimann, 1950; Racker, 1948; 1953; Winnicott, 1947) discutiram no

18 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade final da década de 1940 sobre a contratransferência como um instrumento técnico na psicanálise. Alguns autores (Zambelli et al., 2013) atribuem a Paula Heimann a autoria deste movimento. Todavia, Racker (1982) apresentou uma obra ampla sobre a contratransferência, refletindo sobre a neurose, masoquismo, mania e resistência do analista. Enquanto Heimann (1950) levantava a bandeira da contratransferência como instrumento técnico na Sociedade Britânica de Psicanálise, Racker (1948) fez o mesmo na Associação Psicanalítica Argentina. Paula Heimann enfrentou diretamente a oposição de Melanie Klein, enquanto Racker (1982) pôde avançar seus estudos com mais autonomia (Machado, 2009). Segundo o autor, o analista não está livre de desenvolver uma neurose de contratransferência, de desempenhar uma postura maníaca, masoquista e resistente dentro do processo analítico. Racker (1948) parece retomar a compreensão de Freud (1910) e Ferenczi (1919; 1927) em relação à contratransferência e avança afirmando que, assim como a transferência mobiliza a contratransferência, esta, por sua vez, mobiliza a transferência. Para o autor polonês, é inevitável que o paciente tenha contato com os afetos do analista. A obra de Racker (1982) conduz à compreensão da singularidade de uma análise. O entrelaçamento da transferência e da contratransferência ocorre em um tempo e espaço específicos, constituindo-se como experiência singular, que não se repete. A segunda regra fundamental (Ferenczi, 1927) da psicanálise é construída singularmente em cada momento da vida do analista. É dessa forma que a reanálise se torna relevante. Analisar novamente, em outro momento, com outro analista, os conteúdos internos é dar sequência ao processo de autoconhecimento e compreensão das pulsões e objetos internos. Assim, o analista poderá se aproximar da possibilidade de experienciar a contratransferência como instrumento técnico no processo analítico de seu paciente. Contratransferência na clínica da infância A clínica da infância desafia o analista quanto ao manejo da contratransferência. A criança, em seus diferentes estágios de desenvolvimento psíquico, transfere seus objetos internos parcialmente formados para o analista e este, por sua vez, realiza um processo regressivo. O analista resgata sua infância e a revive na análise de seu paciente.

19 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade A consciência de que o psiquismo do infante está em desenvolvimento e, consequentemente, não possui todos os recursos psíquicos necessários para decidir, refletir, avaliar, julgar e agir é primordial. Aspectos infantis do psiquismo são manifestados naturalmente e, na medida em que o vínculo analítico se fortalece, a criança fácil e rapidamente pode aumentar a intensidade e a naturalidade nas manifestações de si. Considera-se que o processo analítico durante a infância possa contribuir para a criança realizar adaptações e mudanças no tempo e espaço atual. Freud propôs duas vias no percurso analítico: “per via de porre” e “per via de levare” (Freud, 1905, p. 336). A primeira via indica que a análise acrescenta e fortalece as linhas psíquicas empobrecidas ou pouco desenvolvidas. A segunda via propõe a retirada de excessos na escultura psíquica, facilitando a manifestação de conteúdos inconscientes. A análise infantil no tempo e espaço atual toma a “via de porre” e coloca o analista humano, incluindo seu corpo, no cenário que integra o desenvolvimento da criança. A alternância com a “via de levare” se faz necessária, porém com ênfase em ampliações, construções, oportunidades, que acrescentem objetos saudáveis para o desenvolvimento infantil. A criança convida o analista para um envolvimento direto no seu processo terapêutico. Implica-o e o invoca em sua capacidade empática (Machado, 2009) de cuidar, amparar e acolher, desafiando-o a manter essa postura mesmo quando transfere seus objetos e afetos destrutivos. A relação entre a dupla é transpassada pela linguagem da ternura (Ferenczi, 1932), cujos afetos estão mesclados com a ludicidade e amorosidade. Dessa forma, a linguagem da ternura traduz a realidade empírica, tornando-a digerível no processo de integração psíquica da criança. Tal processo inter-relacional configura um território que é sagrado, intocável pela linguagem da paixão (Ferenczi, 1932). A criança-paciente e a criança-analista entram em cena. A criança mobiliza os impulsos paternos e maternos, impulsos pedagógicos, bem como sentimentos agressivos, como a raiva, o medo, a culpa no analista. Na medida em que ele estabelece contato com suas próprias pulsões e afetos, a contratransferência, se estiver seguro com esse conteúdo, poderá fazer o manejo e refletir os objetos transferidos, propiciando elaboração, ressignificação e a formação de objetos internos no paciente. Isso será possível somente no campo da ternura que opera pela ludicidade e pelo brincar.

20 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Em analogia à figura do boneco João Bobo, utilizada por Ferenczi (1928), a análise de crianças gera um movimento para além dos reflexos, que implicam e envolvem o analista na relação transferencial. Ocorre também uma alternância entre a criança-analista e o adulto-analista. Realizam-se intensos movimentos de regressão e retorno ao tempo atual na medida em que o paciente desenvolve e revisa os próprios objetos internos. Mannoni (2003) afirmou que o analista se defronta com a representação de sua infância, mobilizando material arcaico como: medos, defesas, impulsos e desejos. Machado (2009) concordou e complementou que a contratransferência é mais intensa no atendimento infantil, pois decorre de fortes sentimentos, como sedução e agressão, que a criança transfere ao seu par analítico. Nesse contexto, a profunda e longínqua análise do analista, costurada por reanálises, torna-se imprescindível. A elasticidade e a flexibilidade unidas a uma ampla capacidade de contato e manejo do material contratransferencial são condições inseparáveis e indispensáveis na análise psicanalítica de crianças. Se o manejo da contratransferência é um desafio na análise de adultos, na análise de crianças, é ainda maior. Recorte do caso clínico3 Lili iniciou o tratamento por necessidade pessoal, pois eu estava em busca de um paciente que pudesse ingressar como participante da minha pesquisa de doutorado. A criança deveria ter entre seis e onze anos de idade e ter convivência com a família adotiva por mais de três anos. Por intermédio de uma casa de acolhimento, tomei conhecimento de um grupo de pais e crianças adotadas, cuja coordenadora se disponibilizou a ler e avaliar o projeto. Após a avaliação do projeto e dos critérios de seleção dos participantes, ela divulgou no grupo e, segundo ela, surgiram três famílias interessadas. Com base no conhecimento da profissional sobre a história das crianças, das famílias e respectivas condições econômicas, decidiu-se por uma criança de nove anos, com vivências traumáticas na primeira infância e adotada aos cinco anos. Chamarei a paciente de Lili e a mãe de Lola, nomes de personagens da série infantil “Meu amigãozão”. Durante o período de um ano, foram realizadas seis sessões com a Lola, duas iniciais e quatro ao longo do ano, um encontro com 3 O caso apresentado será relatado pelo primeiro autor.

21 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade a professora e coordenadora pedagógica da escola e em torno de 85 sessões com a Lili. A frequência foi de duas sessões semanais. Lili é a quarta de um grupo de cinco irmãos. Em 2016, aos dois anos de idade, ela e seus irmãos maiores foram levados para um abrigo. Sua mãe estava grávida. Receberam visitas dos pais e da avó até o início de 2019 e, logo após, iniciou-se o processo de destituição do poder familiar. Lili foi adotada em outubro de 2019. Seu irmão e sua irmã foram adotados por outras duas famílias. A irmã mais velha não foi adotada, pois costumava fugir da casa de acolhimento. Começou a namorar e foi morar com o namorado por volta dos treze anos de idade. Lili morou na casa de acolhimento até os cinco anos, quando foi adotada por sua mãe, Lola. Segundo a mãe, a adoção foi tranquila e positiva. No início do mês de agosto de 2019, foi informada sobre a possibilidade da adoção de Lili e começou a visitá-la na casa de acolhimento em 12 de agosto do mesmo ano. Visitava diariamente, exceto aos domingos: “Aí, sempre foi muito tranquilo, assim, eu ia todos os dias. Ou eu ia meio-dia ou eu ia no final da tarde né, todos os dias, eu não falhava um dia. Só não ia domingo porque não era permitido” (SIC). Atualmente, a família é composta por Lili e sua mãe. Palavras de Lola: “E se tu perguntar pra ela quem é a família dela que mora em casa, ela vai dizer que é nós, o cachorro e os peixes. E às vezes ela fala o papagaio. Que a gente tem um quadro de um tucano que ela insiste que é um papagaio. E aí ela diz que o papagaio é irmão dela também”. A avó e o avô materno compõem a família ampliada de Lili. No tratamento de Lili, o dueto transferência e contratransferência estava na crista da onda o tempo todo. Em diversos momentos, o destaque foi para a contratransferência. O vínculo com ela ocorreu de maneira rápida. Sem ao menos me conhecer, segundo Lola, Lili esperou ansiosamente o momento de sua primeira sessão de terapia, enquanto eu esperava dificuldades na formação do vínculo. Parecia já me conhecer de longa data. Aproveitava ao máximo as sessões, brincando alegre e divertidamente, criando níveis de dificuldade cada vez maiores. Ficava chateada quando eventualmente não tínhamos uma sessão. Ao chegar, manifestava criativamente seu desejo de antecipar o início e postergar o término do nosso encontro. Buscava estabelecer o controle das atividades e do analista. As brincadeiras se repetiam por diversas sessões e ela se recusava a fazer o que não desejava ou apresentava dificuldade. Manifestava sua raiva através de sua voz firme, olhar severo

22 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade e face irritada. Nesses momentos, eu sentia que ela desejava bater em mim. Quando utilizávamos a bola para brincar, ameaçava e, por vezes, jogava a bola em minha direção com o máximo de força possível. Meu interesse em falar sobre a sua vida anterior à adoção ou em relação aos irmãos era um gatilho que disparava a sua raiva. Com as bonecas, na casinha terapêutica, o enredo era permeado pela dor, assassinato, mentiras, trapaças e dissimulações entre os personagens. Usava a linguagem verbal misturada com gestos corporais para comunicar quando as palavras não surgiam no pensamento. O processo analítico ocorreu nessas circunstâncias, com expressões de vivências traumáticas em sua primeira infância. Por outro lado, Lili manifestava muito carinho, amor, alegria e sensibilidade a possíveis dores, cansaço e desconforto que eu sentia. No início e no término, ritualmente expressava seu afeto positivo. Na chegada, se escondia para ser encontrada. No final, deitava-se na poltrona como um bebê, pernas para cima, e pedia para eu calçar seus tênis. Fazia de conta que sentia cócegas, puxava o pé repetidas vezes e ria. Amarrava firmemente os longos cadarços, puxando-os com uma firmeza excessiva. Receei que a circulação sanguínea em seus pés pudesse ser impedida. Na sessão 38, Lili se recusou a ajudar na organização da sala. Foi firme em sua decisão. Na tentativa de manejar e estabelecer um limite, sem perceber, posicionei-me na porta, mão suspensa sobre a maçaneta, utilizando recursos verbais sem gerar efeito. Lili se organizou, calçou os tênis e se posicionou diante de mim. Com muita segurança falou: “Eu quero sair” (SIC). Subitamente, saí de mim, olhei a cena e quando voltei tive a sensação de estar impondo o bloqueio da porta, transmitindo a mensagem de que não haveria possibilidade de sair sem guardar os brinquedos. Surpreendi-me bruscamente. Como um terceiro, observei essa cena e imediatamente fui invadido pela sensação de estar agindo como um agressor. Em suma, conseguimos organizar um desfecho aparentemente equilibrado. Combinamos que não iríamos poder adaptar a sala às nossas brincadeiras até o momento em que aprendesse sobre a importância de realizar a reorganização no final da sessão. A despedida foi fria e seca, distante. A partir deste momento, fui tomado por um sentimento de raiva que levou horas para se dissipar. O sentimento era de submissão. Fui derrotado na queda de braço com a minha paciente. Uma forte

23 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade desaprovação em relação à minha atitude de impor, ao invés de mediar o estabelecimento de limites por meio de instrumentos lúdicos. O desfecho deste episódio foi, mais uma vez, surpreendente. Na sessão seguinte, Lili entrou no consultório, sentou-se na poltrona e falou que havia pensado sobre a combinação que havíamos realizado. Tínhamos duas opções e Lili falou que estava escolhendo a opção de organizar a sala e assim podermos continuar com as brincadeiras. Tive a sensação de que ela seria incapaz de refletir e, sozinha, tomar essa decisão. Desconfiei de sua postura e imaginei que teria sido orientada pela sua mãe. Mas, no decorrer da análise, ficou claro que ela não havia conversado com Lola sobre o fato ocorrido. Depois disso, Lili não propôs mais brincadeiras com adaptação da sala e passou a usar atividades no computador e celular, deixando também de buscar artifícios para estender a sessão. Reflexão Observa-se que a carapaça da contratransferência não é desenvolvida fácil e rapidamente. O que Freud chamou de problema constante emerge, neste caso, como um desafio constante (Freud; Jung, 2023). A proposta de Racker (1948) para a contratransferência parece servir como uma luva nesse caso. O analista revive na análise a neurose de contratransferência, o Édipo, a castração, entra em contato com o próprio masoquismo, com o sadismo, com os impulsos perversos. O desafio é fazer o manejo desse material de modo que não seja atuado nem escondido (Ferenczi, 1919) e sirva de recurso técnico (Heimann, 1950) para enriquecer o tratamento psicanalítico. Quando a paciente se impôs ao analista, não aceitando a exigência de guardar os brinquedos no final da sessão, possivelmente ocorreu uma regressão inconsciente do analista a situações opressoras vividas na infância. Seu olhar firme e sua fala decidida, frente a frente com o analista, fizeram-no se defrontar com sua parte tirânica e foi nesse momento que ela se tornou vitoriosa na queda de braço. O ego do analista recebeu a denúncia de que sua parte tirânica poderia estar reeditando as vivências traumáticas de Lili com seus pais biológicos durante a primeira infância. Foi quando o ego adulto retomou o controle e integrou as forças libidinais que estavam dissipadas, oportunizando uma possibilidade de escolha para a paciente. Na sessão seguinte, Lili retornou

24 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade e revelou sua capacidade de compreensão, deslocando novamente o analista, pois este a aguardava com as defesas em prontidão para lutar contra os opressores infantis internos projetados no paciente (Racker, 1958). Com as defesas desarticuladas, analista e paciente retomaram o ambiente estável e seguro para a continuidade da análise. O uso da contratransferência como instrumento técnico (Heimann, 1950) coloca o analista no percurso contínuo de formação. O aprendizado é constante e singular, pois a evolução no domínio da contratransferência ocorre a cada sessão, a cada paciente, a cada leitura e na análise pessoal. A singularidade das relações entre paciente e analista indica que a carapaça nunca estará completa. A complexidade psíquica de cada sujeito e a amplitude do inconsciente edificam os pilares da dúvida e da incerteza permanentemente. Cada novo paciente coloca em xeque a suportabilidade da carapaça do analista ao mesmo tempo que a fortalece. Na análise de Lili, foram inúmeros os momentos em que ela criou situações desafiadoras e desconcertantes. Foram diversos os personagens de sua história que povoaram a mente do analista: irmãos, pais agressores, cuidadores, colega de quarto e amigos. Como analistas de crianças, somos capturados e mobilizados a desempenhar o papel do objeto que a criança elege como necessário para cada momento do seu desenvolvimento psíquico. É essencial que esse processo encontre um espaço, o setting analítico, para ser gestado e gerar o nascimento de objetos internos ressignificados e reintegrados. Cabe ao analista o desempenho de sua função, mesmo que seja indefinida e maleável: uma postura madura e vitalizadora que emerge a partir do uso da empatia, criatividade, flexibilidade, hospitalidade, suportabilidade e capacidade de cuidar (Machado, 2009). Cria-se a figura de analista que representa segurança para a criança em análise, possibilitando vivências saudáveis que favorecerão o seu desenvolvimento psicoafetivo. Referências FERENCZI, S. A técnica psicanalítica. Obras Completas Psicanálise II. Tradução de Á. Cabral. 2. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. p. 407-419. Originalmente publicado em 1919.

25 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade FERENCZI, S. Elasticidade da técnica psicanalítica. Obras Completas Psicanálise IV. Tradução de Á. Cabral. 2. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. p. 29-42. Originalmente publicado em 1928. FERENCZI, S. Confusão de línguas entre os adultos e a criança: a linguagem da ternura e da paixão. Obras Completas Psicanálise IV. Tradução de Á. Cabral. 2. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. v. 4. p. 111-121. Originalmente publicado em 1932. FREUD, S. As perspectivas futuras da psicoterapia psicanalítica. Obras Completas. Tradução de P. C. Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. v. 10. p. 219-232. Originalmente publicado em 1910. FREUD, S. Psicoterapia. Obras Completas. Tradução de P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. v. 6. p. 331-347. Originalmente publicado em 1905. FREUD, S.; JUNG, C. G. Cartas de Freud e Jung. Organização de W. McGuire. Tradução de L. Fróes. Petrópolis: Vozes, 2023. HEIMANN, P. Sobre a contratransferência. Tradução de J. Schestatsky Dal Zot. Revista de Psicanálise da SPPA, Porto Alegre, v. 2, n. 1, p. 171-176, 1993. Originalmente publicado em 1950. MACHADO, E. M. A contratransferência na clínica de crianças em situações extremas. Contemporânea – Psicanálise e Transdisciplinaridade, Porto Alegre, n. 8, jul./dez., p. 102-126, 2009. Disponível em: https://www.revistacontemporanea.org. br/revistacontemporaneaanterior/site/wp-content/artigos/ artigo222.pdf. Acesso em: 27 jul. 2025. MANNONI, Maud. A criança, sua “doença” e os outros. Tradução de M. Seincman. 2. ed. São Paulo: Via Lettera Editora e Livraria, 2003. 253 p. RACKER, H. Estudos sobre técnica psicanalítica. Tradução de J. C. de Almeida Abreu. 3. ed. São Paulo: Artes Médicas, 1982. RACKER, H. A neurose de contratransferência. In: RACKER, H. Estudos sobre técnica psicanalítica. Tradução de J. C. de Almeida Abreu. 3. ed. São Paulo: Artes Médicas, 1982. p. 100-119. Originalmente publicado em 1948.

26 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade RACKER, H. Os significados e usos da contratransferência. In: RACKER, H. Estudos sobre técnica psicanalítica. Tradução de J. C. de Almeida Abreu. 3. ed. São Paulo: Artes Médicas, 1982. p. 120-157. Originalmente publicado em 1953. RACKER, H. Contra-resistência e interpretação. In: RACKER, H. Estudos sobre técnica psicanalítica. Tradução de J. C. de Almeida Abreu. 3. ed. São Paulo: Artes Médicas, 1982. p. 167-171 Originalmente publicado em 1958. WINNICOTT, D. W. O ódio na contratransferência. In: WINNICOTT, D. W. Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. São Paulo: Ubu, 2021. p. 356-370. Originalmente publicado em 1947. ZAMBELLI, C. K.; TAFURI, M. I.; VIANA, T. C.; LAZZARINI, E. R. Sobre o conceito de contratransferência em Freud, Ferenczi e Heimann. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 25, n. 1, p. 179-195, 2013. Disponível em: https://doi.org/10.1590/ S0103-56652013000100012. Acesso em: 27 jul. 2025.

27 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade A implicância enquanto forma de potencialização e representatividade para crianças negras na escola Fabiana Andressa Rodrigues da Silva1 Luciano Bedin da Costa2 Resumo: Este é um relato sobre a experiência de um corpo negro e gordo, de uma psicóloga que atuou em uma escola pública na região metropolitana de Porto Alegre (RS), entre 2022 e 2023. Por meio da escrevivência e apresentando o conceito de implicância, suas vivências são exploradas, assim como as dos estudantes, e a importância da representatividade no ambiente escolar. A implicância surge como uma forma de enfrentamento e de potencialização das crianças que encontraram, em um corpo negro e gordo, de uma psicóloga, uma referência e um espaço de vinculação. A presença da psicóloga – um corpo negro em posição de referência – emerge como um potente espelho de identificação, especialmente para meninas negras, fortalecendo sua autoestima e desafiando narrativas de silenciamento. O trabalho destaca a relevância do acolhimento e da legitimação das experiências dos estudantes, transformando a escola em um espaço de potência para o desenvolvimento e empoderamento de crianças negras. Palavras-chave: implicância; crianças negras; escola; representatividade. 1 Psicóloga clínica e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do RioGrande do Sul (UFRGS). E-mail: fabiana.andressa@ufrgs.br. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-0183-5655. 2 Psicólogo e docente na Faculdade de Educação e no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail: bedin.costa@gmail.com. ORCID: https://orcid. org/0000-0002-6350-2644 DOI https://doi.org/10.29327/5676001.1-4

Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade 28 Nossos corpos negros Nossa capacidade de gerar entusiasmo é profundamente afetada pelo nosso interesse uns pelos outros, por ouvir a voz dos outros, por reconhecer a presença dos outros bell hooks Um corpo negro será atravessado por várias questões que permeiam o seu existir, suas relações sociais, comunitárias e familiares. Quando pensamos na constituição desse corpo, a escola exerce um papel fundamental de possibilitar caminhos, abrir portas e intermediar as relações grupais e sociais, além do papel de ensino e aprendizagem. Quando falamos de um pequeno corpo negro, que está frequentando uma escola em um dos municípios que faz questão de marcar a sua colonização alemã, inclusive com lei municipal sobre tal, esses corpos infantis passam a ser invisíveis e negligenciados dentro das suas potencialidades e possibilidades. As questões atreladas a preconceitos raciais, por vezes, são minimizadas, tratadas de forma omissa, ou incluída em um grande pacote de “problemas de convivência”. Ao me inserir em uma escola da rede municipal de uma cidade da região metropolitana de Porto Alegre, para atuação enquanto psicóloga, eu - um corpo negro e gordo - me deparei com várias situações que já havia vivenciado enquanto estudante de uma escola pública no ensino fundamental e médio. Precisei também lidar com as desconfianças direcionadas ao meu fazer profissional e lidar com as invalidações e desconfianças que se dirigem a uma psicóloga negra. Minha inserção se deu através de um programa realizado pelo município que esteve em vigência entre os anos de 2022 e 2023. Ingressei no programa por necessidade e por responsabilidades financeiras, não por almejar a atuação profissional em uma escola. Já que, enquanto estudante, minha experiência não foi das mais tranquilas e não tinha a menor saudade dessa época. Porém, aqui nessa escrita, não irei me ater ao programa, mas sim à minha experiência com as crianças que encontrei e meu reencontro com a minha criança na escola. Essa experiência junto ao programa me levou a pensar criticamente acerca do recorte de raça, com um olhar cuidadoso para crianças negras, bem como para os processos de representatividade e aco-

29 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade lhimento. Para isso, experimento a escrevivência, trazendo um relato de experiência com um toque ficcional. Como nos coloca Dorneles et al. (2024, p. 6), as escrevivências são como “palavras germinantes”, possibilitando o crescer de histórias e narrativas que nem sempre são contadas. Um corpo implicante percorre territórios, anda entre os processos, sente e vive intensamente as bonitezas e mazelas dos espaços por onde circula. Em um corpo implicante, profissionalismo e neutralidade jamais andam juntos, pois no chão da escola não existe como olhar de longe ou não ser afetado. Um corpo negro implicante chega à escola e, ali, vivi ali diversas experiências pessoais e profissionais que chegam nesta escrita. A escola como espaço de potência Ouço, vejo e sinto as infâncias que permeiam a escola, mas também autorizo totalmente minha criança e minha infância a retornar e lidar com seus medos, inseguranças e potencialidades que vivi lá atrás, enquanto uma criança negra e gorda na escola. Para isso, me utilizo do conceito de infância de Noguera (2019, p. 140), que explica que essa fase “está sempre acessível a cada um de nós”. A infância, neste trabalho, é entendida, então, como aquela “capaz de reunir experiências espirituais restauradoras e ações políticas transformadoras e democráticas” (Noguera, 2019, p. 132), e onde buscamos ser “capazes de assumir a infância como um estado existencial especial que nunca devemos perder” (Noguera, 2019, p. 135). Minha infância na escola foi a infância de uma estudante com mãe professora. Fui muito protegida em vários sentidos e situações, porém, essa proteção não me fez escapar do racismo e da gordofobia. Preconceitos que apareciam até mesmo no questionamento em relação ao fato da minha mãe, uma mulher parda, ter o tom de pele mais claro que o meu: “mas ela é tua mãe mesmo?” Sim, ela é minha mãe. E por ser filha de mãe professora na rede estadual até a 5ª série tive cerca de cinco trocas de escola, pois eu ia aonde ela estava, perto de casa, no interior, na maior escola da cidade. Todas as mudanças, certamente, acompanharam uma criança, que teve muita dificuldade para se alfabetizar, que era sempre a última a copiar o que foi passado no quadro, por vezes nem dava tempo e

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