75 Eixo I - Currículo, docência e políticas educacionais Coord.: Daianny Madalena Costa Narrar para construir significados: uma análise de mini-histórias produzidas em uma escola do Observatório da Cultura Infantil (OBECI) Nomes dos autores: Isadora Porto Rodrigues UFRGS; Instituto de Letras; isadrporto@gmail.com METODOLOGIA Neste estudo, relaciono e articulo os saberes teóricos à análise de narrativas escritas por professoras da Escola de Educação Infantil Mimo de Gente, que é participante do Observatório da Cultura Infantil e o tem como variável pedagógica, isto é, nessa escola se produz mini-histórias porque ela está inserida na comunidade do OBECI e é sustentada pela Documentação Pedagógica. Nesse caso, entendo que a pesquisa baseada em documentos é a melhor ferramenta para realizar a análise a qual me proponho, afinal me empenho, como pesquisadora, em “investigar os tipos de significados construídos através dos textos” (LANKSHEAR, KNOBEL, 2008, p. 105), que, neste caso, são as mini-histórias. A análise documental que será feita não pretende ser classificadora, no sentido de dizer quais narrativas estão boas e quais não estão, se as professoras escrevem bem ou não; afinal isso não compete a mim. O objetivo é construir um olhar crítico, reflexivo, porém sensível, que assegure que as educadoras entendem a importância de tornar visíveis as aprendizagens e as evoluções dos meninos e meninas no contexto da escola por meio dessa estratégia de comunicação, isto é, pretende-se construir esse olhar a partir de documentos que já existem porque a pesquisa baseada em documentos “não solicita a criação de novos dados, mas o embasamento em textos oficiais já existentes, para reconstituir (alguns) de seus conteúdos como dados para novos estudos” (LANKSHEAR, KNOBEL, 2008, p. 55). CONSIDERAÇÕES FINAIS Essa pesquisa destaca que a Documentação Pedagógica é o que legitima a existência e a escrita da mini-história como tal, porque, caso contrário, ela seria apenas uma explicação ou uma descrição do que as crianças e os adultos fazem na escola. No entanto, a Documentação Pedagógica sustenta a prática das mini-histórias como uma forma de construir um capital narrativo que seja um testemunho ético, plural e cultural, rico em experiências das crianças e adultos que participam, interagem, criam sentidos, transformam a realidade e constroem mundos possíveis através de suas histórias. Concluo dizendo que as mini-histórias feitas nas escolas que tem como variável pedagógica a abordagem do OBECI, que é sustentada pela Documentação Pedagógica, contribuem para a defesa e a manutenção desse outro jeito de fazer pedagogia, quero dizer, alimenta o sonho de se fazer uma escola com a participação, com as teorias, com os desejos e, essencialmente, com as histórias das crianças e suas infâncias. REFERÊNCIAS BRUNER, Jerome. La fabrica de historias: derecho, literatura, vida. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2013. FOCHI, Paulo Sergio. A Documentação Pedagógica como estratégia para a construção do conhecimento praxiológico: o caso do Observatório da Cultura Infantil - OBECI. Tese (Doutorado em Educação). Programa de Pós Graduação em Educação, Universidade de São Paulo, 2019. LANKSHEAR, Colin; KNOBEL, Michele. Pesquisa pedagógica: do projeto à implementação. Porto Alegre: Artmed, 2008. RESULTADOS E DISCUSSÃO Acredito que um dos caminhos para responder a pergunta central deste trabalho é a narrativa. Afinal, “bem ou mal, ela é nosso instrumento preferido, talvez obrigatório, para falar das aspirações humanas e de suas vicissitudes, as nossas e as dos demais” (BRUNER, 2013, p. 125). Sendo assim, a escolha da narrativa para compor a documentação da escola, recorrendo às mini-histórias, não é injustificada. Afinal, se preciso dar significação ao que observei, registrei e agora vou comunicar, o ato de narrar pode ajudar a construir um testemunho ético e sensível para com as infâncias. Como afirma Jerome Bruner, “Por meio da narrativa construímos, reconstruímos, em certo sentido até reinventamos, nosso ontem e nosso amanhã” (BRUNER, 2013, p. 130). O processo de escrever uma mini-história não é somente pensar nos aspectos pedagógicos que envolvem a cena do cotidiano, mas também pensar em como, diante das palavras, do exercício de escrita, posso colaborar estética e narrativamente com esse momento observado e, sobretudo, com o capital narrativo da escola. A união dos dois aspectos, pedagógico e narrativo, é o que transforma a documentação, o produto comunicado, em paradigma para construir uma comunicação que, mais do que explicar, contribua para a produção de novos sentidos. No entanto, isso só será possível se o fazer pedagógico estiver pautado na estratégia da Documentação Pedagógica, afinal, nesse caso, é ela que revela o potencial narrativo de construir novos mundos possíveis, melhor dizendo, realidades que possibilitem aos sujeitos envolvidos na interação atribuir sentidos e significações partilhadas aos momentos vividos e aos discursos circundantes. Portanto, em consonância com Paulo Fochi (2019), acredito na potência da narratividade, pois ela tem a força para evidenciar as histórias (co)construídas no interior da escola. INTRODUÇÃO Com este trabalho, pretendo contribuir para as pesquisas sobre as “rapsódias da vida cotidiana” (FOCHI, 2019b, p. 10) ao explorar seus aspectos pedagógicos e narrativos através da reflexão sobre as mini-histórias no contexto do Observatório da Cultura Infantil (OBECI). A pergunta central é: Como atribuir significação ao momento observado, registrado e que agora quero comunicar? A fim de responder, realizei a análise de narrativas escritas por professoras da Escola de Educação Infantil Mimo de Gente, escola participante do OBECI. Para isso, tenho como referencial teórico, principalmente, os trabalhos de Paulo Fochi (2019) e Jerome Bruner (2013). Este estudo é relevante pois visa destacar as mini-histórias como um testemunho da vida acontecendo e da(s) cultura(s) sendo criada(s) pelas crianças e educadoras na escola das infâncias. Figura 1 – O valor educativo e a memória pedagógica das mini-histórias Fonte: Acervo da escola (2023) “Assim, narrar também pode ser uma forma de negociar significados para nossas vidas e de produzir teorias, projetando futuros. E produzir esse capital narrativo, em termos pedagógicos, poderá ser uma alternativa de mudança na medida em que os professores e as crianças, na escola, se sentirão engajados ética e moralmente ao seus discursos, sentimentos e ações” (FOCHI, 2019, p. 42). Mais do que construir memórias, a narrativa pedagógica constrói cultura. Ela fortalece e enriquece esse acúmulo narrativo do qual tenho falado e que corrobora com o que Bruner e Fochi também vêm dizendo. “A narrativa, inclusive a de ficção, dá forma às coisas do mundo real” (BRUNER, 2013, p. 22), isto é, confere significação.
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