VIII CONGRESSO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO UNISINOS

77 Eixo I - Currículo, docência e políticas educacionais Coord.: Daianny Madalena Costa O alimentar-se como ato educativo na Educação Infantil: uma perspectiva intercultural Autora: Débora Caroline Vargas Unisinos - Programa de Pós Graduação em Educação - dbsantos 0410@gmail.com METODOLOGIA Os documentos curriculares análisados foram: a Base Nacional Comum Curricular - BNCC (2017); o Referencial Curricular Gaúcho - RGC (2018); a Organização da Ação Pedagógica na Educação Infantil na Rede Municipal de Novo Hamburgo/RS - Caderno 2 (2020); e o Projeto Político Pedagógico - PPP - de uma Escola Municipal de Educação Infantil também de Novo Hamburgo (2020). Os documentos foram analisados a partir da Teoria Bioecológica de Desenvolvimento Humano criada pelo psicólogo Urie Bronfrenbenner. Tal teoria alega que não há como conceber uma pessoa separada do seu contexto, já que não há como desligar o sujeito do grupo em que vive, sendo que estes dois organismos coexistem e se retroalimentam (Benetti, 2013). Desta forma, percebeu-se que compreender cada documento dentro de seu contexto era indispensável para produzir uma análise concreta e, considerando que tais documentos tratam majoritariamente da Educação Infantil, da criança, das infâncias e das docências, torna-se prioritário produzir a pesquisa apoiando-a no que entremeia todo o trabalho pedagógico desenvolvido nas creches e pré-escolas: o currículo. Além de atrelar o sujeito ao seu contexto, a escolha pela Teoria Bioecológica de Desenvolvimento Humano também permite que os documentos sejam conjecturados em sua lógica concêntrica, ou seja, da instância nacional, estadual, municipal até chegar na escola propriamente dita com o PPP. Assim, um percurso analítico foi traçado e permeiou todo o processo, que se discorre por cada documento tendo como foco a discussão em torno da alimentação das crianças no cotidiano escolar. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir da análise documental e apoiando-se em estudos sobre currículo, criança e educação intercultural, entende-se que tais documentos, que estipulam os preceitos para o trabalho desenvolvido nas creches e pré escolas, estão em consonância com a perspectiva de uma experiência alimentar que permite que as crianças construam significados sobre a vida, sobre si mesmos e sobre o mundo. Porém, tendo esta reflexão como ponto de partida e valorando o caminho já trilhado na qualificação da oferta de momentos de alimentação na Educação Infantil, percebeu-se que deve-se dar continuidade a este processo de aprimoramento das vivências dos sujeitos na escola das infâncias, para que haja uma pontificação entre os postulados curriculares e a prática pedagógica desenvolvida no cotidiano escolar. Essa consideração se dá, em primazia, porque os documentos curriculares analisados restringem as discussões sobre alimentação ao ato de comer, contudo “[...] precisamos acolher a complexidade do alimentar-se, pois o alimento não está dado no prato. Ele possui uma identidade, um histórico que vem desde a sua produção até chegar nas nossas mesas, e mesmo depois, continua tendo repercussões na vida de quem se alimenta dele” (Vargas, 2021, p. 79). Deste modo, é necessário que o alimentar-se na escola permeie os variados ângulos do alimento que o tornam em uma matéria cultural, social, nutricional, experiencial e, por sua identidade plurifacetada, educativa. REFERÊNCIAS BENETTI, Idonézia Collodel et al. Fundamentos da teoria bioecológica de Urie Bronfenbrenner. Pensando Psicologia, Bogotá, v. 9, n. 16, p. 89-99, jan./dez. 2013. Disponível em: https://revistas.ucc.edu.co/index.php/pe/article/download/620/585/. Acesso em: 10 mar. 2024. FOCHI, Paulo Sérgio. Criança, currículo e campos de experiência: notas reflexivas. Conjectura: Filos. Educ., Caxias do Sul, v. 25, p. 52 - 72, 2020. Disponível em: http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/conjectura. Acesso em: 10 mar. 2024. SANTIAGO, Mylene Cristina; AKKARI, Abdeljalil; MARQUES, Luciana Pacheco. Educação Intercultural: desafios e possibilidades. Petrópolis: Vozes, 2013. VARGAS, Débora Caroline. O alimentar-se como ato educativo na Educação Infantil: uma perspectiva intercultural. 2021. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia) - Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 2021. RESULTADOS E DISCUSSÃO Com a análise profunda dos documentos alicerçada em conceitos como alimentação, interculturalidade, experiência, dentre outros (figura 1), observou-se a presença das noções de cuidado, cotidiano, intencionalidade pedagógica e territorialidade atreladas às discussões sobre as vivências alimentares das crianças. Ou seja, tais normativas já estabelecem a complexidade do ato de comer e promovem reflexões que tiram os momentos de refeição na escola da esfera da banalidade, como muitas vezes é concebido por seus atores, e realoca-os em um tempo-espaço que valoriza o alimento, sua relação com a humanidade e seu aspecto sociocultural. Na BNCC, por exemplo, o termo alimentação está junto das noções de cuidado de si e do outro, na medida em que comer, enquanto experiência de aprendizagem, é uma vivência que possibilita descobertas sobre si, sobre seu corpo e seu entorno, tanto ao ser cuidado pelo adulto, quanto nas situações em que a criança cuida de si mesmo. Já no RCG, a alimentação surge como parte de um cotidiano vivo e rico em possibilidades, que em sua anfemeridade garante que as crianças criem significados sobre os fenômenos ao seu redor, o que inclui o ato de comer. O Caderno 2, ao dialogar com o professor, aborda a alimentação através da intencionalidade pedagógica, isto é, trata da importância de visualizar e pensar as experiências alimentares na escola com teor educativo, tendo o propósito de ofertá-las às crianças de forma qualitativa, contando então com a documentação pedagógica enquanto instrumento de valoração e efetivação do cotidiano como fio condutor da prática pedagógica. Por último, o PPP analisado trouxe um aspecto ainda não abordado pelos anteriores, que é a articulação entre alimentação e territorialidade, o que é evidente, considerando que é o documento mais específico dos quatro analisados. Em seus postulados, este PPP traz o quão relevante é para o desenvolvimento integral da criança que ela experiencie o comer na escola respaldado em suas tradições familiares. INTRODUÇÃO As vivências alimentares oportunizadas nas creches e pré-escolas possuem diversas facetas: de que maneira são oferecidas aos bebês e crianças, a variedade e qualidade dos alimentos, como são planejadas e avaliadas, o modo como atendem - ou não - as especificidades dos pequenos, dentre vários outros aspectos que estão imbricados ao ato de comer. Esta característica multifacetada da alimentação no cotidiano escolar é também o que, em suma, constitui a relação da criança com o alimento e seus fenômenos, tornando-se em uma experiência de aprendizagem. Logo, a presente pesquisa, fruto do Trabalho de Conclusão de Curso em Pedagogia da referida autora, teve como objetivo analisar os processos alimentares existentes na escola a partir do que está postulado nas normativas curriculares de diferentes instâncias, tendo como enfoque as premissas da educação intercultural, afim de compreender quais reflexões estão latentes em torno do alimentar-se enquanto ato educativo. Palavras-chave: alimentação; interculturalidade; currículo; Educação Infantil. Figura 1 - Esquema de busca por palavras chave. Fonte: Vargas, 2022. Apesar dos documentos trazerem reflexões específicas em relação a alimentação das crianças na escola, tais pontos estão interligados entre si e coexistem em uma mesma intenção educativa, principalmente se considerarmos a lógica concêntrica de abrangência de cada documento, como mostra a figura 2. Além disso, constatou-se que o caráter educativo das experiências alimentares estabelecido nas normativas curriculates está intrinsecamente correlacionado aos encadeamentos da educação intercultural, que é a propriedade reflexiva balisadora desta pesquisa. Ao analisar os documentos, tendo como substrato os estudos em torno dos conceitos de currículo na Educação Infantil e de educação intercultural, identificou-se que ambos aproximam-se consideravelmente, tornando possível associar estes dois vieses e os tornar coadjuvantes na composição desta pesquisa. Santiago, Akkari e Marques (2013, p. 38) afirmam sobre interculturalidade: “[...] a partir da construção de certos significados que os sujeitos se assumem enquanto indivíduos e, conforme a posição que assumem e com as quais se identificam, constituem suas identidades”. Ao mesmo tempo, Fochi (2021, p. 59) esclarece que “[...] entendo que a noção de currículo na Educação Infantil está diretamente associada à busca e a construção de sentidos”. Ou seja, são duas concepções em campos de reflexão distintos que se assemelham em sua proposição, permitindo que, ao dialogar sobre a alimentação das crianças na escola em termos de organização curricular, possamos interpretá-la como um ato educativo intercultural. Figura 2 - Diagrama de ecossistemas da TBDH. Fonte: Vargas, 2022.

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