94 Eixo III - Práticas pedagógicas resultantes da experiência da pandemia Coord.: Maria Alice Gouvêa Campesato ENSINAR “DIREITO” NA PANDEMIA: EXPERIÊNCIAS DE UMA UNIVERSIDADE JESUITA Raquel von Hohendorff; Wilson Engelmann; Águeda Bichels UNISINOS; rhohendorff@unisinos.br; wengelmann@unisinos.br; agueda@unisinos.br METODOLOGIA A elaboração deste artigo utiliza a perspectiva metodológica sistêmico-construtivista, considerando a realidade como uma construção de um observador. Trata-se de uma estratégia autopoiética de reflexão jurídica sobre as próprias condições de produção de sentido, bem como as possibilidades de compreensão das múltiplas dinâmicas comunicativas diferenciadas em um ambiente complexo, consoante Luhmann (2007). CONSIDERAÇÕES FINAIS Pensar o Direito a partir de uma perspectiva menos formalista exige uma reflexão sobre a formação de habilidades e competências. A Universidade detém enorme papel educativo na formação dos cidadãos, pois não prepara apenas novos profissionais, mas sim gerações nas mãos das quais está o destino e a condução de nosso país e da nossa sociedade. As faculdades de Ciências Jurídicas e Sociais devem formar pensadores e pesquisadores capazes de desvelar sentido e questionar autenticamente o que se faz com o Direito na sociedade, preparados para atuar em um mundo complexo, e para tanto, precisam utilizar práticas de ensino diferenciadas. A responsabilidade do professor, como gestor do coletivo está relacionada diretamente a questões como liberdade, autonomia, ética, limites, inquietação pela busca do conhecimento e a busca contínua pela atualização. São questões que representam a Pedagogia Inaciana, que também cultiva esses propósitos ao propor a formação integral, capaz de motivar para a reflexão e a ação dentro e fora da sala de aula. REFERÊNCIAS FLORIDI, Luciano (ed.). The onlife manifesto: being human in a hyperconnected era. London: Springer Open, 2015. LUHMANN, Niklas. La sociedad de la sociedad. México: Herder, 2007. KLEIN, Luiz Fernando (org.). Educação Jesuíta e Pedagogia Inaciana. São Paulo: Loyola, 2015. INÁCIO de Loyola, Santo. Exercícios espirituais. São Paulo: Loyola, 1966. n. 2. SCHLEMMER, Eliane; KERSCH, Dorotea; OLIVEIRA, Lisiane. Formação de professorespesquisadores em contexto híbrido e multimodal: Desafios da docência no stricto sensu. Revista Tecnologias na Educação, [S. l.], ano 12, v. 33, dez. 2020. Edição Temática XIV. UNISINOS. Universidade do Vale do Rio dos Sinos. 2024. Disponível em: https://www.unisinos.br/escolas/direito.Acesso em 17/03/2024. INTRODUÇÃO Os autores atuam na Escola de Direito da UNISINOS, uma instituição jesuíta de Ensino Superior, no RS, Brasil. E, como todos os docentes do mundo, foram surpreendidos com a pandemia de Covid-19, em 2020. Inspirados na proposta da Pedagogia Inaciana, como promotora da formação integral para a cidadania global e o direito universal a uma educação de qualidade, objetivam apresentar três relatos com o mesmo desafio: envolver os alunos, estimulando-os a assumir o papel de protagonistas na construção de seu conhecimento, em um contexto de pandemia, de ensino remoto emergencial (em 2020/1) e depois em um contexto de ensino híbrido.. RESUMO Relatam-se três experiências docentes, três reinvenções, em uma Instituição de Ensino Superior brasileira, jesuíta, na área do Direito, em diferentes atividades acadêmicas, durante a pandemia de Covid-19, com base na pedagogia inaciana, buscando promover a formação integral e desenvolver o protagonismo dos alunos na construção do conhecimento. Palavras chaves: Ensino, direito, pandemia, jesuíta. RESULTADOS E DISCUSSÃO O primeiro relato é de uma docente que, em 2007, começou a trabalhar com aulas EAD, na atividade de Metodologia da pesquisa em Direito. A professora menciona que percebeu, no concreto, o que sempre visualizava, mas não sabia como expressar: o fim da sala de aula como a conhecemos: quatro paredes, mesas e cadeiras que remontam ao tão sonhado exército de Napoleão, contatos semanais com os alun@s e, muitas vezes, excessivamente formais, sendo o conteúdo tratado como disciplinas, não raro, de forma isolada e estanque. Relata que, na época, seguiu-se um tempo de muita angústia e noites em claro. Os questionamentos se multiplicavam... Surgiam perguntas: Que metodologia empregar para que o processo de aprendizagem se efetive e consolide da melhor maneira? Como se fazer entender? Como os alunos vão compreender? Surgiu uma ideia interessante: como sempre gostou de escrever cartas, passou a utilizar essa forma de comunicação, bem mais próxima e intimista, adaptando-a, estabelecendo relações de ensinoaprendizagem com os alunos. Sempre inicia os textos com uma forma bem pessoal, e cada aluno dentro do coletivo é tratado como único. A docente menciona que busca colocar no texto toda a emoção do falar, a fim de que as conversas se tornem mais participativas e proveitosas. Trata-se da prática do non multa, sed multum inaciano, ou seja, “não é o muito saber, mas o sentir e saborear as coisas internamente”. (EE, 2, INÁCIO de Loyola, Santo, 1966, p. 15). O aprendiz saboreia o conhecimento quando despertado para a sua humanidade essencial, tornando-se reflexivo, livre, bom, feliz, competente e criativo no trato com o mundo que o rodeia. O segundo trata de como a instituição agiu no migrar das aulas presenciais para o ensino remoto emergencial e a influência em suas atividades. Na Pedagogia Inaciana, as mudanças são consideradas tanto na dimensão teórica quanto na dimensão prática. No caso da Covid 19, exigindo responsabilidade, criatividade e rapidez, a contextualização do cuidado (cura personalis) teve especial relevância como motivação na dinâmica das ações específicas. Houve um programa continuado, com atividades elaboradas de forma colaborativa, levando-se em consideração as demandas dos docentes e a busca permanente pela excelência acadêmica. Resultou destes encontros importante troca de experiências e uma melhoria na qualidade das aulas, o que foi o insight para a criação de uma nova forma de ensino, pesquisa e avaliação. O cuidado de toda a pessoa (cura personalis) abraçado pela Pedagogia Inaciana, funcionou sempre como base para o discernimento das ações e, por isso, os resultados estão se consolidando com qualidade e aprofundamento do “novo normal” nas diversas etapas do “aprender” e do “ensinar” na Educação Superior. O terceiro relato é da área do Direito do Trabalho, área do conhecimento jurídico que é constantemente modificada por conta das diferentes crises que seguem assolando o país (sanitária, econômica e social). A docente tem utilizado algumas ferramentas de forma a estimular as soft skills em seus alunos. Aqui, quando se menciona soft skills, quer-se incluir habilidades de trabalho em equipe, habilidades de comunicação oral e escrita, ética, habilidades de gerenciamento de tempo, solução de problemas, pensamento crítico e liderança. E essas habilidades básicas são geralmente mais desenvolvidas por meio da participação ativa dos alunos. Diante do contexto pandêmico, desenvolveu-se uma atividade com os alunos de realizar uma entrevista com um trabalhador/empreendedor/ empregador, enfim, um ator do campo do trabalho, acerca das mudanças em sua vida ocasionadas por conta da pandemia de COVID-19. Figura 1- Competências do estudante de Direito – Unisinos Fonte: Unisinos (2024) Após a realização das entrevistas, os alunos apresentaram suas impressões, e a partir dessas, em aula síncrona, foram surgindo os debates sobre a importância de algumas medidas, sobre as consequências delas, e sobre a forma como elas foram elaboradas e continuadas ou não. A ideia era o desenvolvimento de habilidades de conversação, a criação de um roteiro de entrevista, bem como a de comunicação escrita, ao realizar o relato. Ainda, alguns alunos optaram por realizar a apresentação por meio de podcast e de vídeos. Pode-se perceber um maior empenho dos acadêmicos na realização da atividade da entrevista e um real interesse em apresentar seus resultados na aula síncrona, compartilhando experiências.
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